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quinta-feira, 2 de abril de 2015

O dia em que me tornei Ultra-maratonista - A chegada à meta do III INATEL Piodão Ultra Trail

O dia em que me tornei Ultra-maratonista - I
O dia em que me tornei Ultra-maratonista - II

Preparo-me para subir o último lance de escadas e ouço pessoas a baterem palmas e a gritarem por mim. Mas aquelas vozes não me eram estranhas. Olho de novo para cima e vejo toda a minha família a sorrir para mim.

O meu irmão esperava-me de máquina fotográfica em riste, pronto a registar tudo. O meu pai, ao lado dele, felicitou-me. Olho para cima e lá estava a minha mãe a gritar "Força, Dado!". À minha frente, a minha irmã e namorada estavam de telemóvel em punho, a filmar tudo. A minha irmã corre para mim e abraça-me, sigo na direção da minha namorada e beijo-a. A noite já tinha caído, mas eu estava com calor, tanto calor que transpirava em bica, o suor a entrar-me para os olhos, deixando-os vermelhos e cobertos de lágrimas. Por causa do suor, atenção!! Correm comigo aqueles últimos metros. Quando estou a passar por baixo da meta, dou um salto e braços no ar. Fico ali parado e digo que está na hora da dança da vitória. Faço-a e todos aplaudem aquele louco que depois de 53kms, 10horas e 24minutos, ainda tem força e disposição para dançar. Abraço e beijo de novo a minha namorada. O meu pai aparece por detrás de mim, também ele com problemas de suor nos olhos e abraça-me. Beijo toda a minha família. Cumprimento aqueles que me acompanharam e que chegaram antes de mim. Vou buscar uma canja. Ao bebê-la do copo, escorre-me pela barba. Todos se riem, todos choram, todos estão orgulhosos de mim.

No dia 28 de Março de 2015, tornei-me um ultra-maratonista!










O dia em que me tornei Ultra-maratonista - Até aos 100m finais do III INATEL Piodão Ultra Trail

Estou a meio da prova, passaram 4h45m e, apesar dos empenos que já tinha sentido, tinha mais vontade de acabar que antes!

Entretanto, enquanto, finalmente, consigo encher a mochila com água, a Menina foge a sete pés. Disse-me que não esperava tanto calor, mas eu vi-a a ir embora toda fresquinha. Deste posto de abastecimento até ao que estava por volta do km32, foi sempre a abrir no meu ritmo super-sónico de 10 ou 11minutos por km. Não que o terreno fosse de dificil progressão, apenas começava a sentir a falta de treino. Valeu-me as paisagens deslumbrantes. Há quem possa achar que olhar em volta e só ver serra não é nada fascinante, mas há algo que me tranquiliza quando vejo a imensidão do que me rodeia e do pequenino que somos. Alguns atletas iam passando por mim e eu chegava-me para o lado para não os atrapalhar. Tinha tempo, muito tempo. O sol só começaria a desaparecer depois das 19h. O percurso ia alternando entre trilho bem técnicos e os estradões, invariavelmente, enfadonhos. Prefiro correr num trilho pouco técnico mas "claustrofóbico", a roçar com as pernas e braços nas ervas e árvores, a ir no meio de uma estrada de terra batida com 3metros de largura. Mas todos sabemos que este é um mal necessário para ligar secções da prova.

E lá cheguei ao abastecimento do km32. Já disse que o do km25 deixou muito a desejar. Mas este, meus amigos, este abastecimento faria inveja a muito casamento. Vejamos: sal, tomate, laranja, banana, bolachas, frutos secos, água, coca-cola, isotónico, cerveja, vinho, queijo da serra, bifanas e camarão! Tudo à grande e à francesa. Nesta fase já ia com bastante fome. Já tinha tomado um gel e uma barra. Sentei-me na companhia de alguns membros do CnC e uma voluntária perguntou-nos se queriamos uma bifana. Até serviço à mesa tinha! Dissemos que sim e o que me deram foi um paposseco com 2 febras enormes lá dentro. Descansei enquanto reabastecia as energia. Enquanto isso, iamos ouvindo a história que um senhor estava a contar sobre uma prova em França que não apanhei o nome. Dizia ele que a prova era curta mas que todos demoravam muito tempo. A dificuldade não estava no acumulado, mas sim nos imensos abastecimentos quase de 5 em 5 kms. Que ao km2 tinham logo um pequeno almoço com direito a tudo, que ao km 5 tinham café e bolos. Enfim, qualquer coisa completamente fora do normal. Mas eu não estava ali para ouvir histórias, estava ali para escrever a minha própria história. Portanto, levantei-me e fui embora. Não sem antes ouvir o tal senhor que agora é que o trail ia começar.

A bela da mesa do fantástico abastecimento.

Fechem os olhos. É melhor abrirem os olhos para poderem ler primeiro. Imaginem que estão a olhar para cima e que o que veem é uma subida tão ingreme que mais vos parece uma parede. Nessa parede, pintada de lilás, conseguem ver uma falha na pintura, que se estende da sua base até ao topo, não a direito, mas passando por onde o cimento (vegetação) é mais fraco. Ao longo dessa falha, veem pequenos pontos de várias cores. E vocês sabem que terão de passar por ali, pelos longos 800metros daquela falha. Quando a começam a subir, sabem que vai custar, que vai doer, que vão parar mais vezes que as que querem, que vão dar 3 passos para a frente e 1 para trás, que vão caminhar dobrados e apoiados nos joelhos, que os bastões (se os tiverem) vos vão massacrar os braços, que vão praguejar, que vão ofender os organizadores (aqueles desgraçados que se estão a rir a imaginar-nos a subir isto), que vão olhar para trás e pensar que isto era muito melhor a descer, que vão olhar para cima e pensar que os metros, os metros não, os kms nunca mais acabam. Vão devagar, muito devagar. Mas como na estória da tartaruga, devagar se vai ao longe. E não desistem. Continuam determinados a vencê-la. Até que, finalmente, pisam chão plano, olham para trás e têm vontade de subir tudo aquilo de novo! (Naaaah! Ofendem-na uma última vez antes de lhe vivarem costas!). Agora, depois de terem lido isto e verem a imagem abaixo, fechem os olhos e imaginem-se a passar por isto.

Foto de "The Photo Follower - Abel Simões", que espelha o que tentei descrever.

Estas paragens eram uma constante.

Quando terminámos esta atrocidade, no topo da serra conseguiamos ver Piodão, mas, até lá chegarmos, ainda nos faltavam 20kms e algumas subidas complicadas. A aprtir daqui entrámos numa zona mais rolantes, dentro daquilo que eram as capacidades de cada um. Foi nesta fase que tive um acréscimo de energia. Conseguia correr e sentia-me bem. As dores e o cansaço desapareceram e dei por mim a correr e a sorrir. Olhava para a serra verde e para as eólicas brancas, altas, enormes, que pintalgavam a planície. Dei por mim a pensar que há muita coisa boa no mundo, mas liberdade como está há muito pouca. Segui confiante e a bom ritmo até ao km38, onde encontrei um pequeno PAC, fazendo apenas uma curta paragem. Restavam pouco mais de 2kms, sempre a subir, até ao K40. Entretanto, nesta fase, partilhei a minha aventura com a Elisa e com o Luis, completos desconhecidos, mas unidos pelo que estavámos a fazer. Quando lá cheguei, levava pouco mais de 8horas de prova. Disseram-nos que a partir daqui seria sempre a descer até ao K47, mas que a descida se fazia devagar e que iamos apanhar o vento contra nós. Vesti o corta-vento, atestei-me de água e arranquei.

A placa que indicava a subida para o K40.

De facto, até ao último PAC ao K47 (que no meu relógio foi aos 49), foi sempre a descer ou plano, por estradão, mas, mais uma vez, serviu para recuperar algum tempo. Foi durante esta fase que tive um dos momentos mais emocionantes. Quando olhei para o relógio, tirei uma foto e a enviei à minha namorada com a mensagem "A partir daqui sou ultra-maratonista!".

A partir daqui: o desconhecido.

Confesso que me vieram as lágrimas aos olhos. Estava a conseguir. Para além de não pensar em desistir, sentia-me bem. A partir daqui, tudo era novo para mim. Nunca tinha corrido mais de 42.195m, muito menos em trilhos. Algo cresceu dentro de mim que me permitiu correr até nas subidas mais ligeiras. Percorri kms com o coração a mil, olhos embargados e eletricidade no corpo. Corri o mais rápido que consegui até avistar um pequeno aglomerado de casas, com um ribeiro a passar por baixo, deixando ouvir a sua melodia ao bater nas rochas, onde estava o último abastecimento. Comi uma sandes de queijo, banana com sal, água e isotónico. Estava quase. Faltavam 3kms. Seriam em subida constante, mas estava tão perto que já lhe conseguia sentir o cheiro (mesmo por cima do meu cheiro a suor!). Lancei-me à jornada final, uma vezes a caminhar rápido, outras a correr devagar. Começou a escurecer. Queria acabar a prova antes de ter de usar o frontal. Até que vi uma placa que me deu aquele alento que tanto precisava.

Cada vez mais perto.

Acelerei tanto quanto me foi possivel e quando vou a percorrer as ruelas de Piodão, um grupo de pessoas grita por mim, a desejar força e a dizer que estava quase, que só faltava mesmo a última súbida. Olhei para cima e vi as luzes da chegada, enquanto disse a rir que eles eram maus para nós. Entretanto, consegui ultrapassar 2 atletas. Começo a subir o caminho que tinha descido de manhã. Estava cada vez mais perto, os batimentos cardiacos a valores nunca antes sentidos.

Preparo-me para subir o último lance de escadas e ouço pessoas a baterem palmas e a gritarem por mim. Mas aquelas vozes não me eram estranhas. Olho de novo para cima e vejo toda a minha familia a sorrir para mim.

(ainda hoje sai a última parte! Lá para as 14horas..)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O dia em que me tornei Ultra-maratonista - Os primeiros 26kms do III INATEL Piodão Ultra Trail

Desculpem o titulo demasiado longo, mas agora que sou ultra-maratonista vai ser sempre tudo ultra! Até os titulos dos posts!
Pensei em escrever um único post, mas depois percebi que ninguém iria perder 3 horas da sua vida a ler isto, por isso, decidi dividir o relato. Não se importam, pois não? Mesmo que se importem, isto é meu, eu é que mando.
Vamos lá a isto? Bora!


Saí de Lisboa ainda não eram 5:30 da manhã. Sabia que a viagem era longa e que arranjar estacionamento numa aldeia que é apelidada como "Aldeia do Presépio", seria complicado. Às 8 e pouco estava a estacionar o carro e a trocar de roupa. Ainda tinha de ir buscar o dorsal que a querida Piolha fez o favor de me levantar e tentar aquecer um pouco antes da partida (que basicamente passa por saltitar no mesmo sitio enquanto meto uma foto no facebook a dizer que vou começar uma corrida). Aquecimento feito e ligo para a namorada para saber onde estavam e se me iam ver a partir. Ela disse que já estavam todos posicionados e prontos a filmar e fotografar o início da festa. Antes da partida ainda deu para cumprimentar (finalmente) o Rui Soeiro e alguns membros do Correr na Cidade, com quem treinei e com quem partilhei muitos kms desta aventura.
As 9horas estavam a chegar e todos prontos a arrancar. Fiquei mais para o fim do pelotão. Aliás, era mesmo dos últimos. à minha frente, mais de 200 pessoas que abdicaram de um dia de descanso para ali estarem. Mas sairam todos muito caladinhos... Algo tinha de ser feito. Decidi então animar o público saltando e levantando os braços como se aqueles metros já fossem uma vitória! (no facebook do Correr na Cidade é possivel ver o video da minha partida)

A tentar chamar a atenção do meu irmão.

A animar aquela malta toda!

Arranquei calmamente atrás daquela multidão. Demos uma curva e começamos a abrandar. O caminho por onde tinhamos de passar dava para 2 pessoas lado a lado. Na minha opinião cortou um pouco a adrenalina que uma pessoa leva no início. Enquanto ainda estava cá no topo, já os primeiros iam lá em baixo, por entre trilhos, quais formigas atarefadas a levar comida para a sua rainha.

Já se via malta lá em baixo!

Os primeiros kms da prova foram corridos por single track, entre vegetação e rocha. Como estávamos no início, toda a gente levava um bom ritmo, pelo que isto não foi problemático. Quer dizer, ao que parece foi para um gajo qualquer que acho que o íamos a atrapalhar. Não descansou enquanto não ultrapassou meio mundo, mesmo que tivesse que ir fora do trilho. Cerca de 2kms à frente estava sentado numa rocha agarrado a um pé e com cara de sofrimento. Eu sei que o pessoal quer correr, mas serão assim tão bons que estão a lutar por um lugar no pódio? Valerá a pena arriscar uma lesão ou magoar alguém para ganhar 10 ou 20 posições? Ao fim de algum tempo, novo abrandamento, desta vez por causa de uma pequena, mas dura, subida de escadas. Convém dizer que as escadas não são em cimento, são em xisto, esculpidas na rocha e não têm um palmo de altura. Ou bem que levantamos a perna, ou não o subimos.

Uma bela escadaria.

Depois desta escadaria e de termos passado por uma povoação, entrámos noutro tipo de terreno. Já não íamos por single track mas por estradão. O único problema, era a subir. O outro único problema, era a serpentear pela serra. Quando estou a subir, gosto de ver o final da subida, de preferência que seja uma reta. Ali, naquela serra, os kms de curva e contra-curva pareciam nunca mais acabar. Quanto mais eu olhava para cima, mais via a estrada cheia de pontos de várias cores, preenchendo a encosta como se fosse uma árvore de natal. A meio da subida, quando finalmente de dignei a olhar para baixo, pensei que estava a ver a coisa mais fantástica de sempre. Se tivesse que apelidar este trail, seria de "Trail das formigas". Porquê, perguntam vocês? Ver aqueles estradões repletos de pessoas, todas atrás umas das outras, fez-me sempre lembrar os carreiros de formigas que tanto me fascinaram quando era miúdo.

Os "carreiros de formigas".

Foram kms sempre em constante subida, sem pausas, sem descanso, sem zonas planas que desse para correr. Fiz grande parte a andar rápido, esboçando uma corrida de vez em quando mas que não durava muito. Quando chegámos ao topo e ao km 10, foi sempre a descer até ao km16, onde estava o primeiro PAC e onde se fazia a separação das provas. Foi engraçado olhar para as placas com as setas e seguir na direção da "prova dos grandes". Tantas vezes olhei para outras setas e lhes virei costas e hoje ia seguir a direção que ela indicava. Este foi o meu primeiro grande momento, era ali que eu estava realmente a dar o passo para algo completamente novo. Desci os degraus devagar e pensativo, depois levantei a cabeça e arranquei para o meu primeiro ultra.

Mas rapidamente voltei à velocidade andamento. Do km 16 e picos até aos 20, fomos presenteados com a primeira grande parede. Demorei cerca de 30 minutos para ir do K16 ao K17. Pensei para comigo que é nestas subidas que o trabalho de reforço muscular faz diferença. E acredito que tenho feito, para quem o fez. Que não foi o meu caso. Nunca senti as pernas a não quererem mexer, mas senti que ficou muito trabalho de casa por fazer. Felizmente, do K17 ao K20, o terreno era um estradão e foi dando para correr alguma coisa. O maravilhoso de subir (sim, subir não é só mau) é que no final sou sempre brindado com um qualquer cenário que me faz esquecer o sofrimento que acabei de passar. Num local destes, rodeado por montanha e por ventoinhas eólicas, senti-me no topo do mundo, capaz de saltar e de agarrar uma nuvem. Mas isso não ia acontecer porque já estava acima das nuvens.

Para a próxima, ouve o Filipe e trata do reforço muscular!

A fotografia não faz jus à beleza da Serra.

Daqui até ao km 26 foi rápido. Outra coisa boa das subidas é que no seu final há sempre uma descida. Subi a serra por um lado e desci do outro. Em Covanca estava novo PAC. Quando lá cheguei já não levava água nenhuma na mochila. Já tinha bebido os 2L, fora o que fui bebendo nos abastecimentos. Quando pedi para encher, não havia água. Naquele que era o abastecimento a meio da prova, tinham uma bancada com pouca coisa, duas pessoas e um garrafão de água que se despejava mais rápido que o que conseguiam encher. Tinham sopa que, por nunca ter experimentado antes, não comi. Podia reagir mal, o estomago podia rejeitar. Decidi ir pelo seguro e encher-me com banana e sal. Estava, portanto, eu com uma banana enfiada na boca quando uma menina se começa a aproximar de mim. Olha para mim e diz "Eduardo?". Eu, apanhado um pouco de surpresa olho para o dorsal dela e vejo o nome Rute. O meu cérebro conseguiu reagir a tempo de perceber quem era. Era a Menina! Trocamos algumas palavras, ela diz-me que não estava à espera de tanto calor, eu digo-lhe que não estava à espera que isto fosse tão duro. Ela vai reabastecer energias e passado algum tempo diz-me que vai arrancar de novo. Eu digo que fico mais um pouco.

Estou a meio da prova, passaram 4h45m e, apesar dos empenos que já tinha sentido, tinha mais vontade de acabar que antes!