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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

EDP Meia Maratona de Évora - uma monumental surpresa.

Há aqueles dias em que tudo nos corre mal durante a prova. Ou porque não levamos as meias preferidas, porque começamos a pensar se desligámos o gás antes de sair de casa, porque nos entra uma pedrinha para o sapato, porque aos 2kms já estamos com vontade de ir à casa de banho, etc etc e tal.. Mas depois há aqueles dias em que os astros se alinham todos e a coisa corre bem. Aliás, até melhor do que alguma vez pensado. Foi o que me aconteceu no dia 26 de novembro na EDP Meia Maratona de Évora, uma prova Running Wonders!



A minha mana já me andava a chatear a cabeça há muito tempo que nunca tinha ido correr a Évora. Que ia a todos os sítios menos ali, uma localidade que até é perto da casa dos meus pais. E algures no inicio de novembro desafiou-me a ir fazer a meia maratona de Évora, enquanto ela e outros membros da família iriam fazer a corrida de 10kms. E como quem desafia paga a inscrição, lá lhe disse que sim. A dois dias da prova diz-me que já não vai à corrida porque tem de ir trabalhar, e lá vou eu sem ela mas com o resto da família.

Encarei esta prova como uma oportunidade de fazer melhor que a Meia Maratona de Lisboa 2017, de 15 de outubro. Os treinos estavam mais em dia e começava-me a sentir bem melhor durante os mesmos. Treinei mais por Monsanto do que em estrada, nunca fiz mais de 14kms, mas acreditava que conseguiria um tempo entre 1h50m e 2h. Não seria o meu melhor tempo de sempre, mas estaria mais dentro daquilo que atualmente o corpo me permite fazer.

A casa dos meus pais é em Mora, que fica a cerca de 60kms de Évora, por isso, a saída ficou marcada para as 8h30. Tempo suficiente para chegar, estacionar e ir para a partida na Praça do Giraldo. Despertador para as 7h para ter tempo de comer em condições, acordo às 7h47 nem eu sei como. Pensei logo que estava a começar mal. A estratégia para a prova foi idêntica à da Corrida do Aeroporto 2017: usar equipamento de trail (meias e ténis) e Tailwind como hidratação/nutrição pré e durante prova. Assim, depois do banho o pequeno-almoço foi pão com manteiga e 250ml de preparado de Tailwind. Os restantes 350ml seria para ir bebendo até meio da prova.

Como eu era o único do grupo a participar nos 21kms, despedi-me deles e fui para a zona da partida, porque tanto a meia como a mini (10kms) começavam à mesma hora e no mesmo sitio, sem caixas de tempo ou de prova, e porque me disseram que ao fim de 200/300m as ruas afunilavam e seria complicado correr. Para quem não conhece Évora, esta é uma cidade onde a maioria dos atletas teriam muitas dificuldades em fazê-la porque estrada e passeio é tudo igual: em pedra da calçada!

Arranquei bem e com ritmo mais acelerado porque não gosto de ir a empatar quem vem atrás. Aproveitei as curvas, em que a malta se atropela para cortar 2metros do percurso pelos passeios, para os ultrapassar e ganhar algumas posições. Os primeiros 3kms da prova foram praticamente sempre a descer. Não há muito altimetria, mas corremos pelas ruas da cidade em ziguezague e acabámos por estar sempre a descer. Felizmente não choveu, ou algumas zonas seriam um autêntico deslizar até parar contra uma parede. Aos 3kms, quando já estávamos fora das muralhas, ia com 14' e a sentir-me bem a todos os níveis. Entrámos numa zona de alcatrão e plana, que me permitiu estabilizar o ritmo entre os 4'30"-4'45". Aos 5kms estava com 23' e começo a fazer contas de cabeça: "Ora, a continuar assim faço 46-47' aos 10kms, depois mais 1hora para os outros 11kms (já a contar com alguma quebra) e consigo acabar ali perto da 1h50'.. TOP!!". Continuei a impor o ritmo a que ia sem grandes dificuldades e bebericando o que me restava de Tailwind. A passagem aos 10kms deu-se aos 46' e tudo parecia bater certo com as previsões.

Comecei a pensar que, com jeitinho, conseguia uma tempo abaixo do que queria inicialmente.

Foi então que em determinadas ocasiões sentia que o estava a abrandar o ritmo. Olhava para o relógio e ia a 4'45". Dava ordem às pernas de acelerarem e elas respondiam de imediato que sim. A partir daqui deixei de olhar para o relógio e ir ao ritmo mais rápido que me fosse confortável. Se rebentasse, rebentava, mas não queria abrandar uma vez que me estava a sentir muito bem, sem qualquer tipo de dores, cansaço físico ou desmotivação mental. Decidi que só iria olhar para o tempo no marco dos 17kms e que queria estar com 1h30', para conseguir fazer os últimos 4kms em cerca de 20' e conseguir o objetivo. Como fui sempre a uma boa velocidade, nunca iam muito atletas ao meu lado. O que fiz foi escolher alguém que fosse uma centena de metros à minha frente e usá-lo como lebre para o ultrapassar. Ao fazer isto, quando dei por mim estava a ver a placa dos 17kms a umas dezenas de metros. Quando estava ao lado dela lá olhei para o relógio e por momentos pensei que alguma coisa estava mal, pois indicava 1h19'!

Comecei a pensar que, com jeitinho, conseguia ter um novo recorde pessoal.

O meu melhor tempo da meia maratona era de 1h43' e alcançado na Meia Maratona de Lisboa 2012. A conseguir manter o ritmo a que ia, ficar muito perto de 1h40' era possivel. Mas os 3kms finais seriam com algumas subidas, não muito inclinadas, mas longas o suficiente para fazer estragos.  Por uma ou outra vez tive de cerrar o dente e "obrigar" as pernas a darem um pouco mais para conseguir correr sempre abaixo dos 5'/km. O que consegui. Voltei a atravessar as muralhas e entrar na cidade, sabendo que os últimos 400m seria muito duros com uma subida de cerca de 10-15%, em calçada. Olhei para o relógio e percebi que se não quebrasse por nada, conseguia um tempo abaixo de 1h40'. Fui ao mais fundo de mim, gritei mentalmente, baixei a cabeça e acelerei com quantas forças me restavam!

Entrada nos últimos 30m, já com o sabor de novo recorde na boca!

Cortei a meta com 1h39'43"!

Esta é a minha cara de espanto por ter feito novo recorde pessoal!



Novo recorde pessoal, objetivo mais que cumprido e felicidade extrema por sentir que corpo e mente reagiram sempre bem. Se calhar alguma das minhas lesões no cérebro fizeram de mim um gajo que aguenta mais e melhor esforços físicos! É nisto que vou acreditar. :)

Quanto à prova, percurso agradável e desafiador, com muita gente a apoiar os atletas, excepto quando estávamos mais afastados da cidade e a percorrer partes de estradas nacionais. Abastecimentos nos sítios indicados e com muito voluntário. Mas, se calhar, dar uma maça inteira num abastecimento não será a melhor ideia! hehe Mais uma vez Tailwind mostrou-se uma muito boa opção, e as meias Mund as melhores amigas dos meus pés!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Corrida do Aeroporto 2017 - Resumo da prova

Fiz a Corrida do Aeroporto a primeira vez em 2014. Primeira e única até 2017. Apesar dos meus objetivos passarem pelos trilhos, como ainda não me sinto totalmente apto a grandes aventuras "no mato" e dada a proximidade da prova da minha casa, inscrevi-me. Objetivo: sub50!


O treino, esse, estava aquém do desejado. Não que se precise de treinar muito para uma corrida de 10kms, mas convém fazer os mínimos olímpicos quando traçamos objetivos que poderão ser mais difíceis do que parecem. Na noite anterior, a convite da minha irmã, fui até Sintra ver um teatro imersivo numa "casa assombrada" e só me deitei às 2h da manhã. Uma vez que a corrida foi a 700m da minha casa, aproveitei para dormir o máximo possivel, 6horas!

A prova começa no terminal de carga do aeroporto e termina no mesmo local. Pelo meio corremos pelo novo Eixo Central, pelo Parque Oeste e pela Quinta das Conchas. Este percurso é mais enganador do que parece. Apresenta algumas subidas que, apesar de não terem muito inclinação, são longas o suficiente para moerem as pernas. Já sabia disso, uma vez que é o local onde faço os meus treinos curtos em estrada, e, por isso, consegui gerir o esforço durante toda a prova.

Como é uma prova com um limite máximo de 2500 participantes (que não esgotou), não é preciso chegar muito cedo para se conseguir uma boa posição na partida. À hora marcada, dá-se a partida e ao fim de 200m e duas curvas já tinha saído do grosso do pelotão e podia impor o ritmo a que queria correr. Depois da primeira subida, entramos no Eixo Central, que é plano (naquela zona), e seguimos em direção à Pista de Atletismo Prof. Moniz Pereira. Damos uma volta pelo tartã, saímos e entramos no Parque Oeste. Voltamos a entrar no Eixo Central e seguimos em direção à Quinta das Conchas, que a contornamos - pelo interior - quase na sua totalidade. Saímos e mais uma vez entramos no Eixo Central. Descemos durante cerca de 500, há um ponto de retorno, subimos novamente os 500m e finalmente descemos em direção à meta. No total são 10kms com 160D+, num misto de alcatrão, pedra da calçada, tartã e terra batida.

https://www.relive.cc/view/1252385726


Quanto à minha prestação e ao que me propus, consegui atingir todos os objetivos: sempre a correr e fazer sub50. O facto de conhecer bem as zonas por onde passámos permitiu-me fazer a gestão certa do esforço. Sabia onde podia começar a acelerar nas subidas e ganhei algumas posições nessas alturas. Passei aos 5kms com 24'13" e percebi que ao manter aquele ritmo, o sub50 estava certo. Fiz os 5kms finais em 24'18". OH YEAH!!

Acima de tudo, foi uma corrida que me deu um prazer enorme fazer, não só por ser "em minha casa", como pelas sensações que tive durante a corrida. Não houve cansaço muscular, não houve falta de pulmão, houve apenas falta de treino para conseguir um melhor tempo. Se isto me motivou?! Imenso! O suficiente para 2 dias depois ir fazer um treino de 13,5kms por Monsanto. :D


Os números que importam:
284º da geral
289º do chip
52º do escalão
1º do meu prédio!

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Rock'n'Roll Meia Maratona Santander Totta 2017


Em 2014, depois da Corrida do Aeroporto, escrevi isto: Porque correr é isto mesmo. É passar por um desconhecido e dizer-lhe que "a meta é já ali", que "é só mais um bocadinho" e "vamos juntos até ao fim?", e fazer-se isso mesmo, cruzar a meta com esse desconhecido e saber que nos ajudámos mutuamente. É o que este aperto de mãos representa.


Em 2017, durante a Meia Maratona de Lisboa , eu fui esse desconhecido, onde várias pessoas que passavam por mim ou que estavam no público me incentivaram a continuar. E isto emocionou-me de uma forma que não estava à espera.

Quando em Agosto fui presenteado com um dorsal para a Maratona de Lisboa o meu primeiro pensamento foi que a conseguiria fazer, que a distância não era novidade para mim e que melhor ou pior iria cortar a meta. Comecei a treinar mas só conseguia correr cerca de 10kms, com algum custo, e 1 a 2 vezes por semana. Entretanto inscrevo-me na Corrida do Tejo para me dar outra motivação mas os treinos continuaram iguais. Apesar disso, consegui fazer uma corrida melhor do que esperado. Isto deu-me um acreditar que terminar a Maratona seria, de facto, uma possibilidade. Só que entretanto, a 10 dias da mesma, e com apenas 3 treinos de 7kms, decidi fazer um treino de 21kms para perceber como estava. O resultado foi tão mau que quando acabei o treino enviei uma mensagem a um amigo a perguntar se queria trocar o dorsal dele da meia maratona pelo meu da maratona. Ele queria muito fazer a maratona e eu no máximo conseguiria faz os 21kms. Proposta aceite e em vez de fazer a minha vida para estar em Cascais às 8h, às 8h estava na Estação do Oriente pronto para apanhar o autocarro que me levaria até à partida na Ponte Vasco da Gama. Saí da cama sem vontade nenhuma de ir correr, fui passear o cão sem vontade nenhuma de ir correr, tomei o pequeno-almoço sem vontade nenhuma de ir correr, fiz a viagem de autocarro até à partida sem vontade nenhuma de correr, ter de esperar mais de duas horas na ponte para começar a correr, tirou-me a ínfima vontade que tinha de correr. Cheguei tão cedo que entre mim e a partida só havia a zona de "elite" e os Securitas.


Sentei-me para não cansar as pernas e fiquei na conversa com o João Campos que, na ânsia de fazer PBT e ganhar uma misteriosa aposta, chegou ao mesmo tempo que eu. O sol cada vez mais alto, a temperatura cada vez a subir mais, a hora de partida a chegar e toca de levantar que já não havia espaço para estar sentado, tal a quantidade de pessoas que já se empurravam atrás de mim. Quando faltam  20minutos para a partida tomo um gel da Stealth porque a digestão do pequeno-almoço estava feita e havia que carregar baterias. O pessoal de trás começa a empurrar cada vez mais, dá-se a partida para os da frente e os Securitas continuam à nossa frente de braços abertos a não deixar passar.  Primeiros gritos a exigir passagem e lá se desviam. Arrancava para conquistar mais uma meia maratona!


Como estava mesmo à frente e não gosto de ir ali a empatar quem vai para correr rápido, também eu tento ter um arranque veloz. Ao fim de 500m já tinha a boca completamente seca e respirava de boca aberta. Olhei para o relógio e ia à estonteante velocidade de 4:30/km. Como senti que a respiração estava a estabilizar, decidi manter aquele ritmo até sair da Ponte. Seriam 6kms e pouco menos de 30'. Nos meus pensamentos comecei a criar a estratégia para a prova: fazia o primeiro terço a este ritmo, o segundo terço a uma velocidade menor que me permitisse descansar as pernas e recuperar fôlego, e o último terço da prova num processo de aceleração continua para acabar a prova em grande.

Quando passei aos 7kms a média estava nos 4:35/km, o que era a velocidade a que corria quando o treino estava no seu auge e quando fiz o meu melhor tempo numa meia maratona. (Sou um gajo que facilmente se deixa levar pelo coração em vez da cabeça. Por isso, quando aos 7kms me sinto bem, lá se vai toda a estratégia ao ar.) Mas ao entrar no Parque das Nações e passar nos primeiros túneis o ritmo abrandou um pouco para os 5:30/km. E em vez de continuar àquele ritmo mais lento, forcei para os 5/km. Nada de grave até chegar aos 10kms, onde, apesar das oscilações de ritmo, fiz um tempo de 49'. Novamente, comecei a pensar que podia fazer um tempo próximo das 1h50'.

Até que cheguei ao km12 e, tal como no outro treino, comecei a quebrar. Mas uma quebra que me obrigou mesmo a caminhar. O calor que se fazia sentir, a juntar às condicionantes da EM, deixaram-me num estado de cansaço muscular e respiratório que não me permitiu correr mesmo que lentamente. A cada abastecimento bebia uma garrafa de água e despejava outra pela cabeça e pelos braços, numa tentativa de arrefecer o corpo. Foi aqui que começaram a passar as primeiras pessoas que me cumprimentavam, perguntavam se estava tudo bem e me incentivavam a não desistir. E quando alguém abranda ou para de correr para saber como estás, é algo que mexe connosco.

Daqui até à Praça do Comércio foi um constante entre correr, trote e caminhar. Queria começar a subir ao Marquês com 1h30' e já ia com pouco mais de 1h40'. Tinha pouco menos de 20' para fazer os cerca de 3kms que faltavam e conseguir um sub 2h. Se alguma réstia de esperança tinha, rapidamente desapareceu quando tive de voltar a caminhar ao passar nos Restauradores. Instalou-se algum desânimo que só era interrompido quando, em sentido contrário (a descer a Avenida da Liberdade), me cruzava com alguém que me reconhecia e gritava pelo meu nome ou me desejava força. E nem mesmo quando já estava no sentido descendente a coisa ficou mais fácil e só não caminhei mesmo por vergonha.



Enquanto descia a Rua Áurea olhei para o relógio e já estava com um tempo acima das 2horas. Dos três objetivos a que me propus para esta prova (correr sempre, ficar abaixo das 2h, sobreviver para contar a história), sabia que só conseguiria cumprir o último. Curva para a esquerda, curva para a direita, entrar no tapete vermelho e cortar a meta com 2h03m11s! Não foi de todo o meu melhor tempo, mas também não foi o meu pior. Acima de tudo fiquei feliz por ter terminado e por ter decidido, mesmo que à última da hora, trocar de prova. Penso que tivesse ido à maratona, havia uma grande probabilidade de desistir.

Os punhos cerrados é de satisfação por cruzar a meta.


Sobre a prova e a organização, muito se tem falado que falharam nisto e naquilo, que cada ano está pior, mas eu apenas posso falar daquilo que vivi e presenciei.
Levantamento do dorsal: A esmagadora maioria acha que não se justifica estar mais de 1hora para entrar na feira. Quando fui à Maratona de Madrid esperei o mesmo ou mais tempo para entrar na feira e outro tanto para ir à pasta party. O que acontece é que, com uma feira aberta desde quinta-feira, muitos decidiram ir só no sábado levantar o dorsal. O único erro que aponto é terem aberto as portas só às 10h. A possibilidade de trocar de dados lá também foi algo positivo.

Horários: A partida da maratona às 8h parece-me bem, a partida da meia maratona às 10h30 já não. O maratonista amador médio demora cerca de 4horas a completá-la, e o meio maratonista amador médio demora cerca de 2horas a completá-la. Se o arranque das provas tivesse uma diferença de 2h em vez de 2h30, haveria uma maior enchente de atletas a chegar ao mesmo tempo, aumentando assim a festa. Mais, quando a meia maratona começa às 10h30 e o último autocarro para a partida é às 9h, significa que mesmo assim tem de se esperar mais de 1hora numa ponte apinhada de gente, sem espaço para alguém se mexer ou sentar, e debaixo de um sol abrasador.

Abastecimentos: O primeiro abastecimento foi aos 6kms e foi apenas de água. A partir daqui ou era água, ou isotónico, gel e ainda houve um de sólidos com bananas e laranjas. Nunca senti que o espaçamento entre os abastecimentos fosse longo demais e em todos havia suficiente para quem lá passava. Seja uma prova de estrada ou de trilhos, nunca as encaro indo totalmente dependente dos abastecimentos da organização, por isso levo sempre alguma nutrição comigo e faço a gestão com aquilo que sei que vou encontrar.

Percurso: A partida de cima da Ponte é sempre giro, dando-nos uma vista fantástica sobre o Rio Tejo e a cidade. Como desta vez os percursos da maratona e da meia maratona não se juntarem, nem haver retorno a meio da prova, faz com que se consiga manter o focus na nossa corrida e não em tentar encontrar aquele amigo que vai numa prova diferente. ajuda também a não desanimar a ver passar por nós os primeiros quando ainda nem chegámos a meio. O facto da prova terminar no centro da cidade, em vez de perto  dum Centro Comercial no Parque das Nações, fez com que as ruas estivessem cheias de pessoas a apoiar-nos. Muitos deles turistas, é certo, mas eram os que faziam a festa ao longo do percurso. Uma grande enchente espanhola que gritava tanto para os seus compatriotas como para os restantes. As ruas entre o Rossio e o Arco da Rua Augusta fizeram-me lembrar a Maratona de Madrid onde tínhamos metro e meio de rua para corrermos, tal eram a quantidade de pessoas a ver-nos e a aplaudir.

Medalha e ofertas finais: A medalha finisher não só é bem gira como ainda tem espaço para se poder gravar o nome e o tempo de prova. No saco com a água e banana, o pacote de leite era dispensável. O gelado de água em vez do Magnum de champanhe do outro ano foi uma melhoria. Se bem que uma garrafa de isotónico seria o ideal.


NOTA FINAL: Quero agradecer a todos os que me cumprimentaram ou que abrandaram para saber se eu estava bem ao longo da prova, e pedir desculpa a todos aqueles a quem não respondi, mas a verdade é que a luta que travava para continuar levou-me todas as forças. Mas todas as lágrimas que libertei durante e após a corrida foi por vossa causa. Até breve, numa estrada ou num trilho.


domingo, 1 de outubro de 2017

Corrida do Tejo 2017 - Quando um erro compensa.

A Corrida do Tejo 2017 ficou marcada por 3 acontecimentos, onde apenas dois deles mereceram destaque nos grandes meios de comunicação: a vitória masculina de Jesus España, um atleta espanhol; a vitória feminina por parte de Ercilia Machado, mesmo depois de uma queda logo nos primeiros 30/40metros; o engano do Bearded Runner que lhe permitiu fazer um tempo muito abaixo do esperado. Claro que sobre este último acontecimento só eu é que falo, mas pronto...





Mas vamos lá ao que interessa. Esta prova marcava, para além de um regresso mais auspicioso às corridas, o correr a primeira vez com a tshirt mágica da SPEM.



Depois da Corrida Sporting, em que não consegui fazer o tempo que queria por segundos, fui para esta com pouco treino mas com vontade de baixar dos 60minutos. Mais uma vez, pode parecer um tempo modesto para quem já correu 10kms em 42', mas as coisas são como são e tenho de me adaptar ao que tenho agora. Em agosto corri 3 vezes e em setembro fui um "treino" de bicicleta e corri 2 vezes, sempre distâncias abaixo dos 10kms. Apesar disso, no dia da prova, às 9:10 estava a estacionar o carro em Algés. Desta vez fui sozinho e, enquanto estava na minha zona de partida, senti um nervoso que já não sentia há algum tempo.

Sabendo de antemão que não iria conseguir um tempo maravilhoso, mesmo assim enviei um comprovativo de um tempo abaixo dos 45', de outra prova, e consegui um lugar na caixa sub45 e na primeira vaga. Fi-lo consciente que se partisse muito atrás e a ter de ultrapassar muita gente, não conseguiria meter um bom ritmo inicial e que comprometeria o tempo que queria obter. Assim, antes da partida, enquanto estava no meu mundo de pensamentos, olhei em redor a tentar encontrar o pacer dos sub50, de forma a colar-me a ele quando passasse por mim.

Tiro da partida e lá vou eu. Comecei a um ritmo ao qual há muito não corria, abaixo dos 5'/km, e parecia que ia a uma velocidade estonteante. Neste primeiro km fui ultrapassado por quase todos os que estavam atrás de mim, só ultrapassando velhotes que, vá-se lá saber como, partem nestas corridas colados ao grupo da elite, e vão o caminho todo a andar e a prejudicar quem lá vai para correr. Entretanto, vejo a passar ao meu lado um pacer, olhei para a bandeira mas estava toda enrolada e não dava para perceber qual era. Assumi que era o sub50 e mantive um ritmo em que ia atrás dele uns 100m. Estava a sentir-me bem, as pernas estavam a responder e os pulmões a trabalharem bem. De vez em quando olhava para o relógio e percebia que, se conseguisse manter aquele ritmo, conseguiria um bom resultado. Mas isto era anda o inicio da prova, onde tudo é plano. Quando cheguei à primeira subida, ali ao lado do Jamor, embora as pernas continuassem a responder, o ritmo passou logo para a casa dos 5.20-5.30'/km. Foi aqui que tive de usar a cabeça pela primeira vez e obrigar as pernas a não abrandarem. Pensamento de "sou capaz" e quando dei por mim já estava a descer. Aqui, como em outras ocasiões, tive de me lembrar do que o grande José Carlos Santos (que me preparou para o MIUT em 2016) me disse sobre aumentar velocidade. Não é alargar a passada, mas sim aumentar a cadência da mesma. E na descida já estava a abrir demasiado as pernas.

Por esta altura estava a aproximar-me do meio da prova e o pacer já era um ponto vermelho lá ao fundo. O problema de provas de estada com grandes retas é que vemos a malta lá ao fundo mas estão mais longe do que parecem. Encosto-me à esquerda para apanhar uma garrafa de água e quando olho para a direita o que vejo?! Outro pacer com uma bandeira azul... A bandeira não estava enrolada e, para meu espanto, era o pacer dos sub45'! Ou seja, durante 5kms corri atrás do pacer dos sub40' quando pensei ser o sub50'. Isto deu-me um ânimo extra de que estava a correr tudo bem. aliás, melhor que o esperado! Decido fazer o que fiz com o outro e tentar acompanhar à distância. Se o conseguisse manter debaixo de olho até ao fim, provavelmente conseguiria um tempo abaixo dos 50'.

Mas ali a partir dos 7kms começou a custar. As pernas não conseguiam manter o ritmo, por muito que a cabeça dissesse para acelerar. Tenho, inclusivamente, de parar um pouco para passar beber água e lavar a cara. O calor já se fazia sentir com força e as minhas pernas estavam a perder as forças. :) Quando me recompus, arranquei e ao chegar à ingrata subida dos 8kms, sou ultrapassado pelo pacer dos sub50'. Sabia que um tempo abaixo dos 50' estava fora de questão, mas teria de manter um bom ritmo para não deitar tudo a perder nos últimos 2kms. Fechei os olhos, cerrei os dentes e gritei mentalmente para as pernas se mexerem ou atirava-as ao mar.

Entro no último km, olho para o relógio e marcava 48' e fiquei naquela "Sub60' já faço de certeza, sub50' já não faço de certeza, mas um sub55' é bem possivel!". Decido que depois de contornar a rotunda em direção à meta que ia fazer um sprint final, mas não passou apenas de um pensamento, pois as pernas não aceleravam mais nada. Ao aproximar-me da meta vejo o tempo e ia ficar na casa dos 53'.

Cortei a meta com uma alegria tal que mais parecia que tinha feito uma maratona em menos de 3h! Fui buscar a medalha e tive pena de não ter lá a namorada para o beijinho da vitória e a mana para a foto da praxe. Consegui, desta forma, atingir o objetivo de melhorar o tempo da última prova e ficar num tempo próximo daquele que fazia quando comecei nisto das corridas. Há ainda trabalho para fazer, mas esta corrida deu-me outro ânimo para encarar a Maratona de Lisboa no dia 15 de outubro. Mais uma vez, não vou lá para melhorar tempo pessoal na distância, mas sim para a terminar sem problemas. Se o vou conseguir, acho que sim. Basta meter a cabeça a funcionar quando as pernas quiserem desistir.


Sobre a organização e prova em si. É uma prova que gosto e onde não inventando muito conseguem ter algo de muito positivo. O percurso é desafiante o suficiente para se tentar, anos após ano, bater recorde pessoal, temos o mar a brindar-nos mais de metade da prova, é um percurso propício a que haja público a incentivar-nos e há animação em vários pontos. Os blocos de partida e as vagas também ajudam a quem de acordo com os seus ritmos, o pessoal não se ande a empurrar/acotovelar/pisar durante a parte inicial. É daquelas provas onde realmente gosto de participar.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

TSF Runners 3ª edição

No passado sábado, dia 14 Maio 2016, participei pela primeira vez na 3º edição da corrida TSF Runners.

Não era uma corrida que fizesse parte dos meus planos, muito por causa de ser em estrada e só 10kms, mas foi-me oferecido um dorsal e não resisti em ir lá e tentar um novo PBT.

[Ok, confesso. O maior motivo que me levou a aceitar foi o querer terminar uma prova depois do que se passou na Madeira. É, ainda, uma coisa que não esqueci, que me custa a aceitar e que pensei que atenuasse depois de correr uma prova do início ao fim. Ajudou um pouco, vá.]

Adiante... Apesar de ter um dorsal, estive quase para não ir. Depois ia de certeza. A seguir já não sabia se ia e acabei mesmo por ir. Não, não estou a ficar esquizofrénico, mas o dia de sábado foi um tanto ou quanto atribulado. Já o expliquei no facebook do blog, mas como nem todos lá vão, deixo aqui como foi em 15 pontos:

1- Acordar às 8h.
2- Ir tomar o pequeno almoço à Padaria Portuguesa.
3- Sair de Lisboa e ir adotar um cão à Lourinhã, através da Associação Projecto JAVA.
4- Ir com o pequeno cão ao veterinário e chamar-lhe Pistacho.
5- Chegar a casa às 15horas e almoçar uns noddles de frango instantâneos.
6- Ir ao Continente comprar comida, comedouro e brinquedos para o Pistacho.
7- Chegar a casa às 16h10 e equipar à pressa.
8- Sair de casa às 16:37.
9- Chegar à partida às 16:59.
10- Esquecer da fita para partir nos sub45 e partir no final de todos.
11- Correr que nem um louco até ao primeiro abastecimento porque não bebemos água em todo o dia.
12- Tentar apanhar o pacer dos sub40'.
13- Cruzar a meta e perceber que se fez um novo PBT.
14- Tirar foto à medalha, ao tempo no relógio e às sapatilhas Crivit (Lidl) e postar nas redes sociais.
15- Ir para casa e chegar lá 1h40 depois de ter saído.

Espetacular, não é?! E querem conhecer o Pistacho? Aqui está ele...

Pistacho. A ver se cresce e me acompanha nos treinos!

Sobre o meu desempenho. Era mesmo o que estava a precisar, acima de tudo, a nível anímico. Podia ter sido melhor se, de facto, não me tivesse esquecido da pulseira sub45'. Mesmo a chegar a 1 minuto do tiro da partida, entrava no meu bloco e evita ter de ir para o fim da pequena multidão que ali se reuniu numa tarde de sol para encher Belém de cor e boa disposição. A minha posição na geral podia ter sido melhor, mas o que conta é o tempo bruto, por isso...

Bem, tiro de partida e caminho devagar em direção ao pórtico de partida, sem forçar ultrapassagens ainda antes da contagem (para mim) começar a sério. Assim que ligo o relógio, ligo também o chip mental de competição e acelero a tentar ultrapassar tudo e todos. Aos fim de umas centenas de metros, encontro pessoal amigo e não resisti a meter um pouco de conversa. Este primeiro km foi o meu mais lento, feito em 4'22".
A partir daqui a estratégia foi tentar ultrapassar o pacer dos sub45' e, depois, fazer os possíveis para apanhar o dos sub40'. Com um 2º, 3º e 4º km a 4'06", 4'12", 4'21" respetivamente, o primeiro pacer foi rapidamente apanhado. Imprimi um ritmo mais vivaço, de acordo com o que o corpo me permitia tendo em conta que estava mal alimentado, arranjei uma lebre e os 5 kms seguintes foram feitos entre os 4'15" e os 4'16". Um autêntico relógio suiço. O último km, feito a 4'10", não foi o suficiente para conseguir um tempo abaixo dos 40', mas o suficiente para conseguir um novo recorde pessoal. Assim, terá de ser na corrida do Sporting que vou tentar chegar a este patamar.



Sobre a organização: Três abastecimentos numa prova de 10kms não se vê em todo o lado. Muitos voluntários a darem-nos água e a apoiar os atletas. Uma boa logística na divisão dos percursos das duas provas principais (5kms e 10kms), que evitou que andassem a correr lado a lado ou uns contra os outros. Uma meta com espaço suficiente para os atletas que chegam não terem de se sair dali à pressa. Uma medalha íman, um garrafa de água, uma maça e 2 pacotes de leite (que recusei) foram dados no final. Uma corrida para as crianças com vários insufláveis, fez-lhes as delicias e proporcionou-lhes momentos de grande diversão. Em resumo: tudo impecável e mais não se podia pedir. Não encontrei nenhuma falha e é uma prova que terei todo o gosto em voltar a repetir.

Por último, este recorde pessoal foi obtido com uns sapatos do Lidl, marca Crivit, e que me custaram 20€. Não, não têm a tecnologia de ponta das sapatilhas de 150€, mas, para mim, são impecáveis e mais que suficientes para estas corridas. Por isso, já sabem, às vezes o melhor não é o mais caro.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

O (meu) MIUT - Madeira Island Ultra Trail 2016

Faz hoje 2 semanas que me sentei no topo do Pico do Areeiro e olhei para os picos que não percorri, para as escadas que não subi e para os trilhos que não me ficaram gravados na memória. No sábado anterior, pelas 16horas e alguns minutos, parava o relógio ainda antes de entrar no carro que me levaria a Curral de Freiras.



Duas semanas se passaram e muito ainda se fala, escreve e lê sobre esta prova que atrai milhares de atletas e outros tantos de acompanhantes. Um prova que cresce ano após ano e que é hoje uma das provas que integra o Ultra Trail World Tour. E é fácil perceber o porquê. Realizada numa ilha, que nos permite atravessá-la e conhecê-la em todo o seu esplendor e com uma organização que não deixa nenhum pormenor ao acaso. As marcações são quase de 5 em 5 metros, os voluntários são altamente prestáveis, os abastecimentos ricos e com condições para que os atletas não se sintam demasiado apertados (pelo menos foi o que senti), uma logística de entrega de dorsal rápida e eficaz e de transporte que deixa qualquer transportadora profissional a léguas. A receita perfeita para uma prova de sonho.



Falar do MIUT é falar de heroísmo. E antes de continuar, tenho de destacar os dois grandes heróis desta edição: Zach Miller, que fez o impensável e completou os 115kms em menos de 14horas, 13h52m para ser mais preciso; e Caroline Chaverot que pulverizou o anterior tempo feminino em mais de 3 horas, terminando em 15h e com um tremendo 8º lugar à geral.
E eu também quis ser um dos heróis que atravessa a ilha desde Porto Moniz até Machico, também eu quis ostentar orgulhosamente o colete finisher. E não havendo uma boa forma de o dizer, talvez a mais 'engraçada' é que trouxe de lá um colete tamanho DNF. Há, no entanto, quem diga que sou herói só pelo simples facto de ter participado na prova, que todos os que arrancam com a intenção de a terminar já são heróis, que os heróis do MIUT são todos aqueles que nele participam. Mas eu não concordo nem um pouco com isto. Herói é aquele que sai de Porto Moniz, que atravessa os picos e vales da ilha e que chega à meta, não necessariamente dentro do seu tempo previsto, mas sempre dentro do tempo limite da prova. Dito isto, eu não me posso considerar herói do MIUT. Eu apenas fiz aquilo que qualquer pessoa que já tenha corrido uma prova acima da distância da maratona pode fazer: inscrever-se e começar a prova.

E a minha prova começou em Outubro, quando me inscrevi nela e percebi que tinha de me preparar bem para o que me esperava. É certo que uma prova como esta não tem preparação possível. Dificilmente alguém que a tenha corrido pode afirmar que está completamente preparado para o que vai enfrentar. Correr em trilhos é sempre uma incógnita e isto aumenta exponencialmente em relação à distância da prova. O que podemos fazer é prepararmo-nos o máximo possível para que consigamos manter corpo e mente dentro do plano que levamos delineados. Ninguém no seu total discernimento mental se propõe a correr o MIUT sem ter um plano para a prova e sem treinar arduamente para minimizar a dor. Porque falar do MIUT é também falar de dor. Dor desde o momento em que sofremos ansiosamente pelo tiro da partida, dor nos primeiros kms em que sentimos as pernas 'perras' e descoordenadas, dor quando subimos os picos, dor quando descemos aos vales, dor quando os kms já se acumulam nas pernas, dor quando um lado da mente nos diz para parar e o outro diz que temos de continuar apesar das dores, e ainda dor nos dias que se seguem ao cruzar da meta. É certo que a alegria de terminar nos vai fazer esquecer todas as dores, mas ela vai sempre existir.

MIUT é dor, alegria e heroísmo.

Eu não fui exceção à regra. Também me preparei o melhor que consegui. Encontrei quem me pudesse dar orientação em todos os aspectos (treino, nutrição, equipamento, plano de ação in loco, etc), e dediquei-me afincadamente. Dedicar-me afincadamente quer dizer que foram muitas horas na serra, com muitos kms e muito desnível percorridos; que troquei manhãs no quente e conforto da cama por manhãs de chuva, frio e dor nos trilhos; que negligenciei quem comigo vive, família e amigos; que foram 6 meses onde tudo girou em volta da prova. E toda esta dedicação deu resultados. Quando no dia 23 de Abril de 2016 esperava ansiosamente pela partida, enquanto revia tudo mentalmente, enquanto me passavam mil coisas pela cabeça, sabia que tinha feito tudo para que conseguisse terminar a prova, tinha estudado todos os xs, ys e zs que iriam surgir, estava consciente de algumas variáveis que pudessem aparecer repentinamente e preparado para elas. Tinha na cabeça a fórmula resolvente para esta imensa equação. Não havia dúvidas, não havia medos, não havia mais nada a não ser o plano e o barulho dos atletas e dos espectadores.

Mas quando cruzei a linha de partida, fui invadido por um estranho silêncio. Via as pessoas a mexer as bocas e a aplaudirem, mas não as ouvia. Dentro da minha cabeça apenas ressoava o som da concentração. O plano traçado consistia em nunca me deixei levar pela tentação de correr demasiado rápido no início da prova, em nunca forçar demais um ritmo que pusesse em risco a continuação na mesma. Apesar do tempo limite no primeiro corte ter sido reduzido em 30', sabia que era exequível se fosse num ritmo calmo mas constante. A primeira subida, a ziguezaguear por Porto Moniz é feita quase toda a andar e a evitar as escadas para conseguir manter uma passada certa. Evitar escadas o máximo que pudesse fazia parte do plano para evitar desgaste das pernas. Ultrapassei e fui ultrapassado. Tivemos um estrangulamento ao km 2 quando o percurso passa por um lance de escadas onde não se consegue ir lado a lado. Andei até começarmos de novo a descer, onde soltei as pernas e pude finalmente apreciar os gritos do público que ali estava, debaixo de chuva, a aplaudir-nos. Ao km5 chegamos à base do primeiro km vertical. Quer dizer, à base do primeiro km e meio vertical. Um subida com cerca de 7kms, com 1487D+ e que nos levaria até ao Fanal. A progressão fazia-se lentamente, não tanto por cansaço, mas porque o terreno estava muito difícil. A chuva que caíra nos dias anteriores tinha deixado os trilhos completamente alagados e enlameados. A chuva miúda que agora teimava em cair só desapareceu quando ficámos acima das nuvens. Para mim foi um alivio, pois a combinação de chuva e do vapor de calor que libertava, eram sinónimos de óculos sempre embaciados. Cheguei ao Fanal (primeiro checkpoint) com 2h57'. Tinham sido quase 3h para percorrer 13kms. Por esta altura já tinha tomado 2 géis e 2 cápsulas de sódio. O plano era tomar uma cápsula e um gel de hora a hora. O abastecimento do Fanal parecia um campo de guerra. Atletas por todo o lado a rodearem as mesas repletas de tudo e mais alguma coisa (já vi casamentos com menos comida) e voluntários e assistentes pessoais a darem-lhes comida e bebida. Fiquei o tempo suficiente para encher os dois bidons de água. 7h30m pode parecer muito para fazer 28kms, mas estamos a falar da Madeira, por isso, o plano era fazer o mínimo de paragens, uma vez que levava nutrição comigo.

Arranquei do Fanal preparado para a primeira grande descida que me levaria a Chão da Ribeira. Uma descida com cerca de 4kms e com 823D-. Ia no meio de um grupo de atletas onde uma coisa era mútua: ninguém queria acelerar ali. A descida era muito técnica e estava muito perigosa devido à lama. Era possível sentir a concentração a flutuar no ar. Os frontais não iluminavam nada mais que o chão imediatamente à nossa frente. Ninguém ousava olhar noutra direção que não para a biqueira dos seus sapatos. De vez em quando ouvia-se um "You ok?", dirigido a alguém que tinha escorregado. Eu também o ouvi. Por duas vezes. Da primeira vez fiquei sentado nuns degraus de terra, da segunda vez quando me tentei equilibrar, sem sucesso, caí de forma esquisita no chão. Foi a partir daqui que o meu destino começou a ficar traçado. Levantei-me e tentei perceber até que ponto aquela dor no joelho iria ficar ou desaparecer. Decidi que tinha era de andar e logo se via. Alguns metros depois, uma atleta à minha frente escorrega e desliza uns dois ou três metros pela lama. Quando se levantou, olhou para o chão e ofendeu-o com todos os nomes feios estrangeiros que ela conhecia. Não percebi nenhum, mas a sua entoação não era simpática. Chego finalmente a Chão da Ribeira e percebo que tenho 3h15' para fazer os 10kms que me separam de Estanquinhos e do primeiro corte horário. Mais uma vez, estamos a falar do MIUT, e de mais um km vertical com 1100D+ em 4kms. Três horas pode parecer muito mas não é. Voltei a encher os bidons e arranquei.

Esta subida até Estanquinhos foi das coisas mais difíceis que já tive de fazer desde que ando nisto dos trilhos. É complicado explicá-la por palavras, mas quem já fez Piódão e subiu a Fórnea, esta é 10 vezes pior. A inclinação é brutal, o terreno massacrante (com a agravante da lama), ninguém consegue falar e só se consegue ver os sapatos de quem vai à nossa frente. Nos momentos em que paramos para respirar ou tirar um gel da mochila e olhamos para cima, vemos pequenas estrelas brancas e vermelhas até onde o pico termina, que mais não são que os frontais de outros atletas. Segui num comboio de 6 ou 7 pessoas a um ritmo lento. Tão lento que comecei a olhar para o relógio e a temer que não conseguisse passar antes do corte. Mas também não era capaz de ultrapassar. Íamos num single track e ultrapassar não só era perigoso como não conseguiria manter o ritmo durante muito tempo. Decidi manter-me com aquele grupo, que apesar de lento ia constante, e acelerar depois da subida. Este, apesar de tudo, era um ritmo confortável para o joelho, que começava a dar sinais quando tinha de dobrar mais a perna. Pelo caminho fomos passando por alguns atletas sentados em pedras e troncos, claramente conscientes que não iram passar do primeiro corte. Mais uma vez subimos até nos encontrarmos no meio das nuvens. Quando ficámos acima delas tive uma das visões mais espetaculares de sempre: um manto branco acinzentado, que lembrava uma cama infindável de algodão, iluminado por uma lua gigante e pela luz do meu frontal. Durante alguns segundos fiquei parado a observar aquela fotografia surreal. Quando a mente voltou para a corrida, corri. Corri em plano, corri a descer, trotei nas subidas, esqueci o desconforto no joelho. Só queria chegar a Estanquinhos antes do corte. Finalmente começo a ver as luzes do abastecimento e sorri ao ver que iria conseguir. Entrei nele com 7h04m. Tinha demorado 7h04m para fazer 27,7kms. Por esta altura já o Zach Miller tinha saído de Curral das Freiras e corria a segunda metade da prova.

Aqui fiz uma paragem maior. Era altura de comer algo mais que gel e beber um recovery. O plano nutricional estava a ser seguido e estava a funcionar bem. Nunca senti fome, nunca senti quebras, nunca senti que as pernas não tinham combustível, e isso deixou-me feliz. Se no Fanal parecia um campo de batalha, aqui já se viam as primeiras vitimas. Muitos eram os atletas que já estavam sentados e não iriam continuar. Era visível nas suas caras a tristeza e a desilusão. O dia estava a começar a nascer e pela primeira vez senti frio. Tinha arrancado só com uma camisola e a t-shit de alças dos Pernas de Gafanhoto, e senti necessidade de vestir o impermeável e as luvas. Quando saí do abastecimento 10-15' depois de ter entrado, sabia que aquele seria o fim para muita gente, mas não tinha sido para mim. Tinha ultrapassado um dos meus maiores receios. Porquê este receio? Façamos as contas: o MIUT tem 115kms e 7000D+; em 27,7kms (menos de 1/4 de prova) temos cerca de 3000D+ (quase metade). o que torna este segmento demolidor e um autêntico cemitério.

A descida de Estanquinhos até Rosário brinda-nos com um km vertical negativo e todo o tipo de trilho possível, desde o estradão, passando por levadas e acabando em escadarias.. No entanto, para quem a fez com o dia a nascer, é também brindado com novo espetáculo natural que envolve nuvens, picos montanhosos, sol e um céu de tons laranja avermelhado. Tirei a única foto durante toda a prova e é a que está a ser usava como header deste blogue.


Seguia confiante até que o joelho me começou a lembrar que existia e que estava ali para me dificultar a coisa. Sempre que tinha de descer uma zona mais técnica, sempre que tinha de dobrar um pouco mais a perna, a dor aparecia. E cada vez mais intensa. Comecei a ficar muito apreensivo. Quando cheguei às escadas percebi que iria ter problemas sérios. Comecei a pôr tudo em causa. Comecei a pensar em todos os esforços que tinha feito e que poderiam ser arruinados por causa de um joelho e de uma dor que nunca em 6 meses de treino tinha sentido. Evitei ao máximo ir pelas escadas, aproveitando, sempre que possível, o terreno inclinado. A chegada a Rosário foi conseguida à custa de muito sofrimento. Enchi os bidões, tomei um gel e segui. Sentia-me a perder muito tempo e ainda estava longe de Curral das Freiras. Pelo meio, ainda tinha de ultrapassar a subida à Encumeada e todos os degraus que lá me levariam.

Se o joelho tinha respondido mal à descida, respondeu ainda pior às escadas. Sempre que o levantava para subir um degrau, parecia que alguém me enfiava uma faca na parte interior e abaixo da rótula. A cada subir de degraus soltava um esgar de dor e um ou outro impropério. Estava numa zona lindíssima, o trilho que nos leva até lá acima tem tanto de infernal como de belo, e eu não estava a conseguir aproveitá-lo. Nem o trilho nem a prova. Foi aqui que pensei que a minha prova estava acabada. No entanto ainda faltavam uma meia dúzia de horas para o próximo corte. Tentei ao máximo abstrair-me da dor, baixei a cabeça e segui. Ao fim do que me pareceu 10000 degraus, cheguei ao topo e tinha agora umas centenas de metros de alcatrão a descer até ao Hotel da Encumeada. Tinha previsto chegar a este posto pelas 10horas da manhã, cheguei lá às 11h04m. Aqui aproveitei para comer umas bananas, umas fatias de bolo, uma sopa, beber um café e novo recovery. Aproveitei para me sentar e descansar um pouco e ir à casa de banho lavar a cara. Tomei também um comprimido para as dores. Afinal de contas estava prestes a entrar no segmento mais longo, cerca de 15kms, e, quando saí do abastecimento, tinha 3h30m para chegar antes das 15h.

A saída da Encumeada reservava-me a passagem por um dos sítios que mais curiosidade tinha em ver: o pipeline. Infelizmente para mim, foi também aqui que tive a certeza que não iria terminar a prova. A "escalada" que ladeava o enorme tubo metálico verde era feita através de degraus em cimento, de tamanho mais ou menos irregular, mas sempre mais altos que a canela, alguns a chegar ao joelho. Subir cada um deles era sentir uma dor enorme que me fazia cerrar os olhos e ranger os dentes. Naqueles 500m de escadas já tinha perdido cerca de 30'. Quando as terminei e entrei nos trilhos onde qualquer pessoa pode andar para conhecer a ilha, o estrago estava totalmente consumado. Qualquer movimento que me obrigasse a dobrar a perna causava-me dor. Decidi tomar um segundo comprimido, mas quando os procurei na mochila percebi que o saco com os comprimidos, o telemóvel e as pilhas de reserva tinham ficado no hotel. Estava demasiado longe para lá voltar e ainda tinha uma réstia de esperança em chegar a Curral de Freiras a tempo de poder continuar. Se o conseguisse, não diria nada sobre a minha lesão e continuava, com todas as consequências que isso poderia trazer. Seguia agora desanimado, dorido, completamente exposto a um sol abrasador que me fazia escorrer suor para os olhar e que foi a desculpa ideal para libertar algumas lágrimas. Não sendo um trilho muito técnico, era uma subida constante, onde eu tentava correr sempre que conseguia. Queria muito, muito chegar a horas, mas para onde quer que olhasse só via um trilho a ladear os picos e sem fim à vista. Quando finalmente terminei aquele troço, entrei na descida para Curral de Freiras. Eram 14h34m e ainda me faltavam 6kms, os primeiros 4 muito técnicos e os últimos 2 pelas ruas e escadas da vila. Ainda tentei esboçar uma corrida, mas não durou mais de 200m. Era o momento de enfrentar a triste verdade: o meu MIUT estava terminado. Durante a descida foi ultrapassado por outro atleta, que me perguntou se estava bem e a quem eu pedi que avisasse a minha família que estava lesionado mas a ir ao encontro deles (João Mata, dorsal 293, se estás a ler isto, obrigado por os teres avisado). Continuei o meu caminho, um passo de cada vez, sofrendo sempre que mexia a perna esquerda, até que fui apanhado pelo segurança/vassoura da prova. Vinha com um grupo de voluntários e que me acompanharam até ao ponto onde me iriam levar de carrinha até ao posto de vida em Curral de Freiras. Foi neste momento que ele me cortou o dorsal, tirando o pedaço do DNF, e oficializou o que eu já sabia. Fiz o resto do caminho sem dizer uma palavra. Quando cheguei, fui recebido pela minha família, que me abraçou, beijou e felicitou com o mesmo entusiasmo que fariam caso tivesse terminado a prova.



Com esta prova e com a lesão que me impediu de a terminar, percebi que só treinar arduamente, ter um plano calculado ao metro, saber quando e de que forma fazer a nutrição e estudar bem o percurso, não é o suficiente. Em todas as provas, e ainda mais numa prova destas, há que ter uma "estrelinha da sorte" ao nosso lado. Ter a sorte de não cair, de não assentar mal um pé, de não comer nada que afete o estômago, que mil e uma coisas que podem acontecer e para as quais podemos não estar preparados não aconteçam. E o que me entristece a sério é que não tive esta "estrelinha" comigo, ou que apenas esteve presente durante os treinos e que me abandonou nos primeiros kms da prova. Eu fiz tudo, tudo conforme o previamente planeado. Cumpri 95% de um plano de treinos ao longo de 6 meses, testei equipamento e nutrição e levei os que melhor me adaptei, subi sempre com uma passada curta e constante, evitei as escadas tanto quanto possível, desci cautelosamente e sem arriscar nada, e, mesmo assim, uma lesão imprevista proveniente de uma queda à partida inocente, impediu-me de cruzar aquela meta e, também eu, ser um dos heróis do MIUT. Não foi este ano, mas a Madeira é, sem dúvida, um livro por concluir.

Como disse, o MIUT é dor, alegria e heroísmo, mas alguns apenas lhe sentem a dor.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

IV Inatel Piódão Ultra Trail

Conhecem aquela expressão "Nadar, nadar, e ir morrer na praia"? Pois, eu no dia 2 de Abril corri, corri, e morri em Piódão.

Foi nesta prova, no Inatel Piódão Ultra Trail, que me tornei ultramaratonista. Uma prova que me levou 10horas e 24 minutos da minha vida, mas que me trouxe ensinamentos que me servirão para o resto  desta mesma vida. Por isto, voltar lá era inevitável. Era, aliás, uma decisão que tomei assim que a terminei da primeira vez.

Mas este ano havia algo de diferente, algo maior que Piódão a acontecer: o MIUT. E Piódão acabava por surgir no momento ideal para um último treino longo de preparação para a Madeira. Mas com uma condicionante: a prova era para ser feita a ritmo de treino e não de competição. Afinal de contas, a prioridade das prioridades eram (e são) os 115kms que ligam Porto Moniz a Machico. Mas eu queria fazer melhor que o ano passado, queria vingar-me da Fórnea, contemplar as eólicas a alta velocidade e acabar a prova ainda de dia, se possível, antes das 17h da tarde.

A saída de Lisboa foi às 4:30, com pequeno almoço tomado, e com uma bucha preparada para comer 1h antes da corrida (uma sandes de fiambre e um batido de proteína). A chegada foi quase às 8h, o que me permitiu ver o sol a nascer por detrás dos montes e serras, transformando o céu num laranja vibrante que nos deixa com um enorme sorriso na cara e vontade de subir trilhos até o atingir. Dorsal levantado e voltar ao carro para equipar.

A caminho da meta, o encontro com caras conhecidas, de outros trails, de outras provas, de outros treinos... Encontrar o Mister José Carlos Santos e ouvir os seus conselhos de última hora. Na zona da partida encontrei o Filipe Torres, companheiro de grandes treinos e companheiro (pelo menos na partida) do MIUT. A partida foi dada alguns minutos depois das 8h, e contornámos o hotel até entrarmos nos trilhos.

Sobre a prova em si, podem ler o que escrevi no ano passado ou a crónica do Filipe que tem mais jeito para descrever os tracks que eu. Vou falar da forma como ataquei a prova durante as suas várias fases, mas de forma resumida: corri sempre em plano, nas longas subidas em ziguezague fui a trote até ter de começar a andar, não me deixei intimidar pela subida da Fórnea, fazendo-a em metade do tempo do ano passado, atacando bem as descidas, parando menos tempo nos abastecimentos e, muito importante, fazendo uma nutrição em prova quase perfeita, seguindo à risca as indicações daquilo que terei de fazer na Madeira.

Foi uma prova totalmente diferente da anterior. As sensações durante a prova deixaram de ser a de superação por estar a correr há tanto tempo, para serem de estar a correr tanto em tão pouco tempo. Diz-se que a prova só começa na subida da Fórnea, e não deixa de ser verdade. Aqueles 1200m, num constante subir técnico de declive bastante acentuado, rebentam com as pernas de qualquer um e transformam qualquer sorriso que se traga num esgar de dor e tristeza. O ano passado quando lá cheguei já ia desgastado e subi-la foi um verdadeiro martírio; desta vez, mantive um ritmo constante, com passos pequenos e com os bastões a ajudar, e, quando dei por mim, estava vencida.

Mas então, se tudo correu tão bem, por que é que disse aquilo do 'morrer na praia' no inicio do post? Porque como disse, em termos de nutrição fiz um trabalho quase perfeito. Se na ingestão de hidratos fiz o suficiente, na ingestão de sais e sódio já nem por isso. O ideal seria tomar cerca de 300mg de sódio de hora a hora. Infelizmente só tinha 3 cápsulas comigo, por isso, tomei-as num intervalo a rondar as 2 horas. E isto, parecendo que não, teve repercussões na parte final da prova. A cabeça queria ir mais rápido, o peito conseguia aguentar o esforço, mas as pernas já tinham dificuldades em manter o ritmo que empreguei durante 90% da prova. Do último abastecimento até à meta eram cerca de 3kms, com pouco declive mas quase sempre a subir. E, por muito que tentasse, não conseguia correr o suficiente para o que precisava. Olhava para o relógio, olhava para o hotel e, percebia a cada passo que dava, que ia falhar o grande objetivo das 8h. Quando cruzei a meta, o relógio marcava 8h04m.

Morri na praia, fiquei a escassos minutos de conseguir o tempo que tanto ambicionava, mas, no entanto, retirei 2horas e 20minutos ao meu tempo anterior. Melhor ainda, foi um ótimo treino para a Madeira, que me permitiu ver o quanto evoluí, o efeito do treino, entrar no ritmo competitivo e ter uma enorme vitória anímica para o MIUT.

Sobre a organização, o que já estamos habituados: bons voluntários, bons abastecimentos, boa sinalização e bom ambiente. O ponto negativo é mesmo o prémio finisher. Se o ano passado nos deram um íman para o frigorífico enorme a representar uma casa de xisto, tão típica da região, este ano deram-nos uma colher de pau com um autocolante da prova. Enfim, a malta também não vai lá pelo prémio, mas pelos trilhos. Os prémios são outros e sempre pessoais.

Não sei se para o ano lá volto, é uma prova que me está marcada e pela qual sinto um grande carinho, mas terei de ver como estão os meus objetivos nessa ocasião. De qualquer forma, Piódão, esta não foi a última vez que nos encontrámos. Até um dia.



 



segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

São Silvestre de Lisboa 2015 - Tarde em grande

Há muito tempo que não me divertia tanto numa prova de estrada, como me diverti nesta São Silvestre de Lisboa. Facto é que me diverti e consegui um dos meus objetivos para este ano. Portanto, foi um dia de grande festa.

O ano passado estava inscrito na corrida, mas acabei por não ir, porque fui correr a 1ª São Silvestre da Serra da Estrela. É provável que nunca tenham ouvido falar dela, até porque só houve uma edição. A organização deixou muito a desejar a todos os níveis. O pior de tudo foi mesmo só ter um participante: eu. O que me valeu o meu primeiro pódio, mas como não havia lá ninguém, valeu-me de zero.

Mas adiante... Este ano marquei-a na agenda uma vez que a queria muito fazer por vários motivos:
- A prova é ao cair da noite, percorrendo as ruas com as luzes da cidade e, nesta altura, dos enfeites de Natal.
- É por ruas que gosto de correr e o percurso, embora tenha zonas onde corremos duas vezes mesmo que em sentido contrário, não nos cria aquela sensação de já ali ter passado há 10minutos.
- Queria muito descer a Avenida a alta velocidade.
- Queria tentar bater o meu melhor tempo na distância dos 10kms.
- Queria saber se os dois meses de treino regular já podiam mostrar frutos.



Uma vez que tinha tantos "quereres", quando abriram as portas dos blocos de partida, entrei logo para conseguir um bom lugar e evitar ao máximo a confusão inicial. Com um dorsal de sub 50, depois da elite feminina partir, fiquei bem próximo do pórtico de partida, tendo apenas um diferencial de 15" entre o tempo oficial e o tempo de chip. Isto permitiu que conseguisse imprimir o ritmo que queria desde os primeiros metros. Embora tenha feito algum ziguezague, ao fim de pouco mais de 1kms já estava a correr sem problemas, tendo corrido os 5 primeiros kms a 4:13 / 4:17 / 4:22 / 4:18 / 4:18.

A primeira metade estava feita e quando olhei para o relógio marcava exatamente 21 minutos. Levava o objetivo em mente de conseguir um tempo na casa dos 42' e tudo parecia correr de feição. As pernas não se queixavam, não me faltava o ar e não sentia qualquer tipo de quebra, mesmo a correr a 187bpm. Olhei de frente os 5kms que faltavam já a pensar na subida da Avenida e num possível desaceleramento. Nunca evitei o empedrado, aliás, até o procurei para conseguir ultrapassar todas as pessoas que iam a correr pelos passeios. Depois dizem que as provas não têm a distância anunciada quando os relógios lhes dão 9,8kms. Em 10kms, a cortarem todas as curvas pelo passeio, facilmente se perdem 200m. Mas isto são outros quinhentos. Os kms 6 e 7 foram feitos a 4:21 e a 4:24, respetivamente.

A partir do Teatro Dona Maria II, cerca dos 7,4kms, começou a parte complicada da corrida, a subida até à rotunda do Marquês. Não é que seja uma subida muito inclinada, mas é longa o suficiente para fazer estragos a quem não controlou as coisas até a começar a subir. Eu continuava a sentir-me bem e avancei determinado a não abrandar o ritmo durante aqueles pouco mais de 1000m até lá acima. Ao passar ao lado da meta vi o relógio oficial e marcava algo na casa dos 32' o que me deu ainda mais ânimo. Mas a verdade é que por muita vontade que tivesse, o ritmo abrandou. Não muito, é verdade, mas acabou por me "roubar" segundos preciosos. O km 8 foi feito em 4:21 e o km 9 em 4:41. Quando comecei a contornar a rotunda olhei para o meu relógio e marcava 39' e alguns segundos. Uma vez que o km final seria a descer, ainda poderia conseguir o tempo desejado.

O km final, aquele km louco sempre a descer, foi feito à máxima velocidade que o meu coração aguentou. Eu bem que queria ir mais rápido, mas a 197bpm as pernas já não respondiam à velocidade que o cérebro queria atingir. Se na subida ultrapassei muita gente, na descida ultrapassei mais ainda. O último km foi corrido a 3:34 e quando cruzei a meta o relógio marcava 43'27"! Fiquei ligeiramente acima do pretendido, mas, mesmo assim, com um novo recorde pessoal. É sem duvida nenhuma uma prova que quero repetir para o ano e, quem sabe, reivindicar novo recorde pessoal!






Quanto à organização, nada a apontar. Os blocos de partida estavam bem indicados e com seguranças a não deixar entrar malta com dorsais que não eram para aqueles blocos, partida dada quase na hora certa, um abastecimento aos 5kms que não usei, a marcação dos km em grandes balões luminosos, e uma zona de chegada grande o suficiente para escoar o pessoal sem atropelos nem pisadelas. A única coisa menos positiva, a meu ver, foi mesmo ter "Os Anjos" a cantarem o hino nacional antes da partida. Mas isto é a minha opinião e pode ser diferente do resto da malta toda.

Outra coisa que gostaria de referir e, mais uma vez, é apenas a minha opinião, prende-se com as "competições" dentro da prova. Existe "homens vs mulheres", o "km mais rápido" e ainda a "Taça HMS Sport" para a equipa mais rápida. Se o "Homens vs Mulheres" é claramente uma competição para a elite, já as restantes provas poderiam ser para os amadores. Como é óbvio o km mais rápido será sempre (ou com 99% de certeza) de alguém que está no pódio. O mesmo se aplica à competição por equipas, onde se contabiliza o tempo dos 3 melhores homens e mulheres de cada equipa. Mais uma vez, ganha quem mete atletas no pódio. Uma vez que estas "competições" têm prémios associados, bem que os podiam deixar para as equipas amadoras. Como? Bastava 'afastar' todas as equipas profissionalizadas. Mas é a minha opinião e vale o que vale.