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segunda-feira, 11 de abril de 2016

IV Inatel Piódão Ultra Trail

Conhecem aquela expressão "Nadar, nadar, e ir morrer na praia"? Pois, eu no dia 2 de Abril corri, corri, e morri em Piódão.

Foi nesta prova, no Inatel Piódão Ultra Trail, que me tornei ultramaratonista. Uma prova que me levou 10horas e 24 minutos da minha vida, mas que me trouxe ensinamentos que me servirão para o resto  desta mesma vida. Por isto, voltar lá era inevitável. Era, aliás, uma decisão que tomei assim que a terminei da primeira vez.

Mas este ano havia algo de diferente, algo maior que Piódão a acontecer: o MIUT. E Piódão acabava por surgir no momento ideal para um último treino longo de preparação para a Madeira. Mas com uma condicionante: a prova era para ser feita a ritmo de treino e não de competição. Afinal de contas, a prioridade das prioridades eram (e são) os 115kms que ligam Porto Moniz a Machico. Mas eu queria fazer melhor que o ano passado, queria vingar-me da Fórnea, contemplar as eólicas a alta velocidade e acabar a prova ainda de dia, se possível, antes das 17h da tarde.

A saída de Lisboa foi às 4:30, com pequeno almoço tomado, e com uma bucha preparada para comer 1h antes da corrida (uma sandes de fiambre e um batido de proteína). A chegada foi quase às 8h, o que me permitiu ver o sol a nascer por detrás dos montes e serras, transformando o céu num laranja vibrante que nos deixa com um enorme sorriso na cara e vontade de subir trilhos até o atingir. Dorsal levantado e voltar ao carro para equipar.

A caminho da meta, o encontro com caras conhecidas, de outros trails, de outras provas, de outros treinos... Encontrar o Mister José Carlos Santos e ouvir os seus conselhos de última hora. Na zona da partida encontrei o Filipe Torres, companheiro de grandes treinos e companheiro (pelo menos na partida) do MIUT. A partida foi dada alguns minutos depois das 8h, e contornámos o hotel até entrarmos nos trilhos.

Sobre a prova em si, podem ler o que escrevi no ano passado ou a crónica do Filipe que tem mais jeito para descrever os tracks que eu. Vou falar da forma como ataquei a prova durante as suas várias fases, mas de forma resumida: corri sempre em plano, nas longas subidas em ziguezague fui a trote até ter de começar a andar, não me deixei intimidar pela subida da Fórnea, fazendo-a em metade do tempo do ano passado, atacando bem as descidas, parando menos tempo nos abastecimentos e, muito importante, fazendo uma nutrição em prova quase perfeita, seguindo à risca as indicações daquilo que terei de fazer na Madeira.

Foi uma prova totalmente diferente da anterior. As sensações durante a prova deixaram de ser a de superação por estar a correr há tanto tempo, para serem de estar a correr tanto em tão pouco tempo. Diz-se que a prova só começa na subida da Fórnea, e não deixa de ser verdade. Aqueles 1200m, num constante subir técnico de declive bastante acentuado, rebentam com as pernas de qualquer um e transformam qualquer sorriso que se traga num esgar de dor e tristeza. O ano passado quando lá cheguei já ia desgastado e subi-la foi um verdadeiro martírio; desta vez, mantive um ritmo constante, com passos pequenos e com os bastões a ajudar, e, quando dei por mim, estava vencida.

Mas então, se tudo correu tão bem, por que é que disse aquilo do 'morrer na praia' no inicio do post? Porque como disse, em termos de nutrição fiz um trabalho quase perfeito. Se na ingestão de hidratos fiz o suficiente, na ingestão de sais e sódio já nem por isso. O ideal seria tomar cerca de 300mg de sódio de hora a hora. Infelizmente só tinha 3 cápsulas comigo, por isso, tomei-as num intervalo a rondar as 2 horas. E isto, parecendo que não, teve repercussões na parte final da prova. A cabeça queria ir mais rápido, o peito conseguia aguentar o esforço, mas as pernas já tinham dificuldades em manter o ritmo que empreguei durante 90% da prova. Do último abastecimento até à meta eram cerca de 3kms, com pouco declive mas quase sempre a subir. E, por muito que tentasse, não conseguia correr o suficiente para o que precisava. Olhava para o relógio, olhava para o hotel e, percebia a cada passo que dava, que ia falhar o grande objetivo das 8h. Quando cruzei a meta, o relógio marcava 8h04m.

Morri na praia, fiquei a escassos minutos de conseguir o tempo que tanto ambicionava, mas, no entanto, retirei 2horas e 20minutos ao meu tempo anterior. Melhor ainda, foi um ótimo treino para a Madeira, que me permitiu ver o quanto evoluí, o efeito do treino, entrar no ritmo competitivo e ter uma enorme vitória anímica para o MIUT.

Sobre a organização, o que já estamos habituados: bons voluntários, bons abastecimentos, boa sinalização e bom ambiente. O ponto negativo é mesmo o prémio finisher. Se o ano passado nos deram um íman para o frigorífico enorme a representar uma casa de xisto, tão típica da região, este ano deram-nos uma colher de pau com um autocolante da prova. Enfim, a malta também não vai lá pelo prémio, mas pelos trilhos. Os prémios são outros e sempre pessoais.

Não sei se para o ano lá volto, é uma prova que me está marcada e pela qual sinto um grande carinho, mas terei de ver como estão os meus objetivos nessa ocasião. De qualquer forma, Piódão, esta não foi a última vez que nos encontrámos. Até um dia.



 



terça-feira, 29 de março de 2016

Correr ou Morrer

“Mas o que é ganhar? Qual é a verdadeira vitória? O que é que, quando ultrapasso a linha da meta, me faz ficar com pele de galinha, sentir os pés a flutuar e não conseguir evitar uma vontade de chorar, de gritar com todas as minhas forças, de desatar a correr e atirar-me ao chão ao mesmo tempo? O que é que me fez sentir dentro desta redoma? A verdadeira vitória não reside em cortar a fita da meta, não é subir ao degrau mais alto do pódio. Nada disto faz com que as pernas tremam de medo e emoção. Ou, quando muito, pode fazê-lo quando recordamos o que vivemos antes. A vitória, a real, é a que reside nas profundezas de cada um de nós. É a que não conseguimos acreditar que, apesar da preparação e do nosso empenho, podemos alcançar, mas que acaba por acontecer. É como se, apesar de conscientemente e com a calculadora na mão, passadas muitas horas de preparação, passados muitos dias de treino, de nos convencermos de que somos capazes de ganhar, ou simplesmente acabar a corrida, houvesse uma coisa no nosso inconsciente a dizer-nos constantemente que é impossível, que é demasiado bom, demasiado grande, demasiado incrível para ser verdade. Que oq eu queremos conseguir não passa de um sonho. E quando atravessamos a meta, quando olhamos para trás e vemos que é real, que somos de carne e osso, e que aquilo que só parecia passível em sonhos se tornou realidade, é que nos apercebemos de que esta é a verdadeira vitória.
Ganhar não quer dizer acabar em primeiro lugar. Não quer dizer bater os outros. Ganhar é vencermo-nos a nós próprios. Vencer o nosso corpo, os nossos limites e os nossos medos. Ganhar significa superarmo-nos a nós mesmo e tornarmos os nossos sonhos realidade. Houve muitas corridas em que acabei em primeiro lugar mas em que não me senti um vencedor. Não chorei ao atravessar a meta, nem saltei de alegria, nem as minhas emoções foram uma tempestade sem rumo. Tinha, simplesmente, de ganhar a corrida, acabar à frente dos outros e, antes e durante a corrida, sabia, tinha a certeza de que chegaria em primeiro lugar. Sabia que não era um sonho, e em momento algum me perguntei o que seria não ganhar. Era fácil, como um cozinheiro que abre o seu restaurante de manhã e sabe exatamente como o bife lhe vai sair. Não há nenhum desafio, não há qualquer sonho do qual tenhamos de acordar mais tarde. E isto, pelo menos para mim, não é ganhar. Pelo contrário, vi grandes vencedores, pessoas que se ultrapassaram a si próprias e que cruzaram a linha da meta a chorar, sem forças, mas não de esgotamento físico e sim, sobretudo, por terem conseguido acabar o que sabiam que, no fundo, só era fruto dos seus sonhos. Vi pessoas sentarem-se no chão depois de atravessarem a meta do UTMB e ficarem sentadas nesta posição durante horas com o olhar perdido, com o maior sorriso dentro delas, sem acreditarem bem que aquilo que acabavam de fazer não era uma rasteira mental. Sabendo que ao acordar podiam dizer que sim, que conseguiram, que venceram todos os receios e que desceram dos sonhos para os tornar realidade. Vi pessoas que, apesar de chegarem depois de os primeiros já terem tomado duche, almoçado e de até j+a terem dormido a sesta, se sentem vencedoras, e não trocariam o que sentem por nada deste mundo. E invejo-as, porque, no fundo, não é por isso que corremos? Para saber que somos capazes de vencer os nossos medos, e que a fita que cortamos quando atravessamos a linha da meta não é sustida por assistentes mas sim pelo que os nossos sonhos determinam? A vitória não é sermos capazes de levar o nosso corpo e mente ao limite para descobrir que estes limites nos permitiram descobrir novos limites? E levar mais longe, pouco a pouco, os nossos sonhos?”
– Em Correr ou Morrer, de Kilian Jornet.


Ontem à noite, deitado na cama, enquanto lia isto, senti uma enorme vontade de começar o MIUT! Acima de tudo, encontrei palavras que vão ao encontro do que penso, e que estarão na minha cabeça durante a prova.

segunda-feira, 28 de março de 2016

370 dias depois do primeiro.

No dia 2 de Abril de 2016 vou ao Inatel Piódão Ultra Trail, que, como quase todos sabem, foi a prova onde me "tornei" ultramaratonista. Tinham passado apenas 153 dias desde que fiz a minha primeira prova em trilhos, uma prova de 15kms e com muito pouco desnível, lá pelos lados da terra que me viu crescer, mas que deixou o 'bichinho' do trail que se haveria de transformar em 'monstro'.

370 dias depois do meu primeiro ultra trail, em Piódão, volto lá. E se da primeira vez levava toda uma inexperiência do que era correr uma prova desta distância e desnível, com o tempo e desgaste físico que acarreta, sem treinos em dia e pouco conhecimento de mim próprio, desta vez levo toda uma preparação (para uma prova que não esta), que me permite olhar para o IPUT com um sorriso de confiança em vez do de incerteza que usei em Março de 2015.

Entre a prova anterior e esta, muito aconteceu. Fiz mais duas ultras (Monte da Lua 55K e Rocha da Pena 65K) e treinei muito, muito mesmo. Tenho equipamento que me vai ajudar na progressão, percebo a importância da nutrição em provas longas e sei quando e em que quantidades a devo fazer durante a corrida. Acima de tudo, não vou para o desconhecido sem preparação. É certo que cada prova é uma prova, que tudo pode acontecer, mesmo o mais imprevisível, mas sinto-me bem mais capacitado para um desafio destes.

Os objetivos são apenas 3: terminar a prova sem lesões, entrar um pouco no ritmo competitivo e conseguir melhorar o tempo do ano passado.


Aaaah, se possível, fazer a prova toda com este sorriso na cara!


quinta-feira, 24 de março de 2016

Um barbudo na Madeira - III



Medo

Falta um mês (menos um dia) para o início do MIUT, para eu cruzar a linha de partida ao lado de outros 599 atletas, e estou apavorado! Sinto um medo maior que aquele que senti quando era miúdo e vi o Seven às escondidas dos meus pais. Sempre que vejo uma foto da prova, um vídeo da prova, um relato de alguém que já lá esteve, mesmo que seja motivacional, fico com um misto de ansiedade e de pânico. Os batimentos disparam e todo eu sou sensações esquisitas e apertos no estômago.

Se me perguntarem se o problema é falta de treino, terei de dizer que não. O treino tem sido intenso quanto consigo. Semanas de 70 kms e 3000D+ são uma constante. Treinos de escadas e algum ginásio (não tanto quanto deveria) fazem sempre parte da ementa. Monsanto, Sintra e Montejunto - a qual agradeço ao Filipe por ma ter apresentado - têm sido as escolhidas. Monsanto porque está perto de casa, Sintra pela variedade de trilhos e Montejunto porque tem mais altimetria e subidas muito longas com bom desnível. Mas nada, nada, ou quase nada, pode preparar uma pessoa para a brutalidade que é o MIUT.

E o meu primeiro grande medo não é saber ou não se chego ao fim antes das 32h limites. O meu maior medo é saber se consigo sobreviver aos primeiros 30kms da prova e conseguir fazê-los em 7h30m. Estes primeiros 30kms têm uns impressionantes 3000 positivos, o que, vendo bem, é o que fazia mais ou menos por semana. São subidas longas, técnicas e com escadas. Se no ano passado o limite era de 8h, este ano retiraram-lhe 30minutos, que pode ser "a morte do artista". A ideia é conseguir chegar lá com uma folga de 1hora e, a partir daqui, ir aumentando esta folga nos limites seguintes, para que, e se, chegar à parte final, consiga descer tudo o que subi antes das 8h da manhã.

Depois, claro, o outro medo prende-se com o facto de nunca ter corrido mais de 65kms seguidos e não faço ideia se aguento tanto km, tanto desnível e tanta hora de uma só vez. Já aqui disse que quando pensei em arranjar treinador (já depois da inscrição feita), a primeira coisa que ele me disse depois de ver o meu historial foi que era muito cedo para fazer o MIUT. E esta é a mesma opinião de quem já o fez ou de quem já fez provas igualmente longas e duras. Eu próprio sei - por muito que me custe admitir - que pode ser, realmente, cedo para lá ir. Afinal de contas, comecei a correr em trilhos há cerca de ano e meio e fiz o meu primeiro ultra há um ano. E quanto mais treino, mais percebo a tarefa hercúlea a que me propus. Quando faço treinos de 6-7horas e lhe meto 2200 positivos, com descidas técnicas de 2kms, e fico todo rebentado das pernas, percebo que isto não é nem uma décima parte daquilo que me espera na Madeira.

Por último, não sei como vou reagir ao correr durante duas noites. Leio relatos de malta que se deixa dormir enquanto corre. Que para para descansar um pouco e adormece imediatamente. Que começam a ter alucinações e a ver o caminho por onde não o há. E aquilo é alto, aquilo é cheio de ravinas e de crateras onde se cair nunca mais ninguém me encontra. E é óbvio que isto também me assusta bastante. Não me assusta o deixar-me dormir, assusta-me o poder cair por uma ravina a baixo e morrer. Pior!! Não acabar a prova por causa disso!

Por outro lado, para me afastar estes fantasmas que, por agora, me perseguem os pensamentos, sei que lá vou ter a minha família. A minha namorada, irmã e pais vão lá estar naqueles dias e, espero eu, na meta, não importa as horas a que chegue. Sei que o apoio deles vai ser fundamental para os momentos em que a cabeça me vai dizer para desistir, que já chega ou que o meu corpo não foi feito para aquilo.

Por outro lado, sei que este medo que sinto é bom. Que me faz encarar a prova com o respeito que ela merece e não como se fossem "favas contadas". Sei que este medo me fará ser cauteloso na minha progressão e, ao mesmo tempo, me fará avançar para não desiludir quem acredita em mim e a mim próprio.