Podia culpar as duas unhas dos pés que me saltaram 3 dias antes da corrida e que me deixaram as meias sujas de sangue.. podia culpar o estômago que voltou a fazer das suas, com câimbras tais que me obrigaram a sentar no banco de uma paragem do autocarro a ver se a dores passavam.. podia culpar o facto de ter sido ambicioso de mais (vá, ganancioso, mesmo) e me ter colado logo ao pacer das 3:30.. podia até culpar o boné ou a falta de chuva. Mas vou culpar o desleixo nos treinos que se apodera de mim antes das provas realmente importantes.
Há muito que estava inscrito nesta prova, sabia o dia exato e hora exata em que aconteceria, sabia até o percurso e a dificuldade que este apresenta. Para alguns pode não ser, mas quando 80% do percurso é feito sem se ver pessoas a aplaudir e a puxar por nós, é uma dificuldade. Sabia, de experiências passadas, que numa maratona não há heróis de sprints nem dos que vão para lá sem o devido respeito. E paguei caro a leveza com que a encarei.
Depois de um Agosto em que corri 300kms, o mês de setembro correu sem nenhuma corrida e sem nenhum treino. No inicio de outubro recomecei devagar e só no dia 11 fiz uma corrida a sério: a do Sporting com 10kms. Antes disso, esbocei uma tentativa de um treino longo que se ficou pelos 20kms e com a clara noção que a forma não era a ideal para o que iria acontecer duas semanas depois. Mas os 45'24" da corrida do Sporting deram-me uma falsa ilusão que a coisa até nem estava assim tão mal.
Mas 10kms não são 42, e eu já devia saber isso.
Foi com confiança que entrei no comboio até Cascais. Foi com confiança que conversei com os amigos na zona da partida. Foi com confiança que entrei na zona das -3H30. Foi com confiança que fiz os primeiros 15kms sempre abaixo dos 5'/km. Foi com confiança que acompanhei o pacer das 3H30 até ao km 20. Foi com confiança que olhei para o relógio e passei aos 21kms com 1H48'. Mas a partir daqui tudo mudou. O estômago começou a dar sinais de vida - iguais aos que deu na Eco Maratona de Lisboa e que me obrigaram a desistir aos 26kms - e tive de abrandar o ritmo. Comecei a ver o pacer a desaparecer lá ao fundo e eu sem conseguir correr atrás dele. Até que aos 24 kms tive de andar pela primeira vez. E depois foi um constante de intercalar e correr e andar para aliviar as dores. Ao km 34 tive mesmo de me sentar uns minutos para controlar tudo e conseguir, pelo menos, arrastar-me até à meta, que a muito custo consegui ao fim de 4h29'34".
Não quero que pensem que me estou a desculpar. Se bem que isto tenha tido muita influência, a falta de treino também não perdoou. As pernas também se sentiram do esforço inicial. Se calhar foi guloso de mais e devia ter guardado algumas energias para a segunda metade da prova. Se tivesse começado a um ritmo mais lento, poderia no final ter acelerado para fazer um tempo realmente bom. Talvez tanta coisa que nem vale a pena pensar nos "talvezes". A única certeza que tenho é que preciso treinar e treinar a sério se quero atingir os meus objetivos. Só falar não chega. Há que dar o corpo ao manifesto e o espírito ao sacrifício
De qualquer forma esta foi a minha quarta maratona, pode dizer-se que sou tetra-maratonista, mas a verdade é que não fiz nenhuma sempre a correr. Quem sabe, quando voltar a fazer uma internacional onde dá gosto correr e ver mares de gente a gritar, esteja chuva ou frio ou calor!
