No dia 2 de Abril de 2016 vou ao Inatel Piódão Ultra Trail, que, como quase todos sabem, foi a prova onde me "tornei" ultramaratonista. Tinham passado apenas 153 dias desde que fiz a minha primeira prova em trilhos, uma prova de 15kms e com muito pouco desnível, lá pelos lados da terra que me viu crescer, mas que deixou o 'bichinho' do trail que se haveria de transformar em 'monstro'.
370 dias depois do meu primeiro ultra trail, em Piódão, volto lá. E se da primeira vez levava toda uma inexperiência do que era correr uma prova desta distância e desnível, com o tempo e desgaste físico que acarreta, sem treinos em dia e pouco conhecimento de mim próprio, desta vez levo toda uma preparação (para uma prova que não esta), que me permite olhar para o IPUT com um sorriso de confiança em vez do de incerteza que usei em Março de 2015.
Entre a prova anterior e esta, muito aconteceu. Fiz mais duas ultras (Monte da Lua 55K e Rocha da Pena 65K) e treinei muito, muito mesmo. Tenho equipamento que me vai ajudar na progressão, percebo a importância da nutrição em provas longas e sei quando e em que quantidades a devo fazer durante a corrida. Acima de tudo, não vou para o desconhecido sem preparação. É certo que cada prova é uma prova, que tudo pode acontecer, mesmo o mais imprevisível, mas sinto-me bem mais capacitado para um desafio destes.
Os objetivos são apenas 3: terminar a prova sem lesões, entrar um pouco no ritmo competitivo e conseguir melhorar o tempo do ano passado.
Aaaah, se possível, fazer a prova toda com este sorriso na cara!
Falta um mês (menos um dia) para o início do MIUT, para eu cruzar a linha de partida ao lado de outros 599 atletas, e estou apavorado! Sinto um medo maior que aquele que senti quando era miúdo e vi o Seven às escondidas dos meus pais. Sempre que vejo uma foto da prova, um vídeo da prova, um relato de alguém que já lá esteve, mesmo que seja motivacional, fico com um misto de ansiedade e de pânico. Os batimentos disparam e todo eu sou sensações esquisitas e apertos no estômago.
Se me perguntarem se o problema é falta de treino, terei de dizer que não. O treino tem sido intenso quanto consigo. Semanas de 70 kms e 3000D+ são uma constante. Treinos de escadas e algum ginásio (não tanto quanto deveria) fazem sempre parte da ementa. Monsanto, Sintra e Montejunto - a qual agradeço ao Filipe por ma ter apresentado - têm sido as escolhidas. Monsanto porque está perto de casa, Sintra pela variedade de trilhos e Montejunto porque tem mais altimetria e subidas muito longas com bom desnível. Mas nada, nada, ou quase nada, pode preparar uma pessoa para a brutalidade que é o MIUT.
E o meu primeiro grande medo não é saber ou não se chego ao fim antes das 32h limites. O meu maior medo é saber se consigo sobreviver aos primeiros 30kms da prova e conseguir fazê-los em 7h30m. Estes primeiros 30kms têm uns impressionantes 3000 positivos, o que, vendo bem, é o que fazia mais ou menos por semana. São subidas longas, técnicas e com escadas. Se no ano passado o limite era de 8h, este ano retiraram-lhe 30minutos, que pode ser "a morte do artista". A ideia é conseguir chegar lá com uma folga de 1hora e, a partir daqui, ir aumentando esta folga nos limites seguintes, para que, e se, chegar à parte final, consiga descer tudo o que subi antes das 8h da manhã.
Depois, claro, o outro medo prende-se com o facto de nunca ter corrido mais de 65kms seguidos e não faço ideia se aguento tanto km, tanto desnível e tanta hora de uma só vez. Já aqui disse que quando pensei em arranjar treinador (já depois da inscrição feita), a primeira coisa que ele me disse depois de ver o meu historial foi que era muito cedo para fazer o MIUT. E esta é a mesma opinião de quem já o fez ou de quem já fez provas igualmente longas e duras. Eu próprio sei - por muito que me custe admitir - que pode ser, realmente, cedo para lá ir. Afinal de contas, comecei a correr em trilhos há cerca de ano e meio e fiz o meu primeiro ultra há um ano. E quanto mais treino, mais percebo a tarefa hercúlea a que me propus. Quando faço treinos de 6-7horas e lhe meto 2200 positivos, com descidas técnicas de 2kms, e fico todo rebentado das pernas, percebo que isto não é nem uma décima parte daquilo que me espera na Madeira.
Por último, não sei como vou reagir ao correr durante duas noites. Leio relatos de malta que se deixa dormir enquanto corre. Que para para descansar um pouco e adormece imediatamente. Que começam a ter alucinações e a ver o caminho por onde não o há. E aquilo é alto, aquilo é cheio de ravinas e de crateras onde se cair nunca mais ninguém me encontra. E é óbvio que isto também me assusta bastante. Não me assusta o deixar-me dormir, assusta-me o poder cair por uma ravina a baixo e morrer. Pior!! Não acabar a prova por causa disso!
Por outro lado, para me afastar estes fantasmas que, por agora, me perseguem os pensamentos, sei que lá vou ter a minha família. A minha namorada, irmã e pais vão lá estar naqueles dias e, espero eu, na meta, não importa as horas a que chegue. Sei que o apoio deles vai ser fundamental para os momentos em que a cabeça me vai dizer para desistir, que já chega ou que o meu corpo não foi feito para aquilo.
Por outro lado, sei que este medo que sinto é bom. Que me faz encarar a prova com o respeito que ela merece e não como se fossem "favas contadas". Sei que este medo me fará ser cauteloso na minha progressão e, ao mesmo tempo, me fará avançar para não desiludir quem acredita em mim e a mim próprio.
No outro dia, no facebook do blog, lembrei-me de perguntar ao pessoal qual era o artigo/produto com o qual nunca saíam de casa antes de um treino importante ou prova, com medo que tudo corresse mal.Esperei as respostas mais mirabolantes, tipo homens de cuecas cor-de-rosa e mulheres com unhas dos pés pintadas de várias cores diferentes. Mas ao que parece, o que o pessoal tem mesmo medo, é de ter um desarranjo
intestinal e não ter onde se limpar ou ter de estragar um buff. E depois de
dar a minha resposta, que é caprichar no cuidado da barba, fiquei a matutar numa coisa. Cada vez vejo mais homens a
usarem barba, menos comprida ou mais comprida, mas a ostentarem a bela da
pilosidade facial. E lembrei-me que no último treino social (aquele anti-social
das escadas) estavam presentes imensas barbas e bigodes. Reparei, no entanto,
que nem todas estavam devidamente cuidadas. E como vocês sabem, eu sou corredor
mas também sou barbudo. Faço da corrida e da barba um estilo de vida. É por
isso que dou tanta importância ao equipamento que compro, quanto tenho cuidado
a tratar da minha barba.
A pensar nisto e nos homens que amam a sua barba - e nas
mulheres que amam um homem barbudo – vou dar-vos uma sugestão (não pode ser
sempre coisas de corrida): Le Beard!
A Le Beard é uma marca portuguesa que oferece produtos e
artigos que nos vão ajudar a ter uma barba cuidada e apresentável, que vai
fazer inveja nos outros e deixar o mulherio em delírio. É muito provável, não
sendo 100% certo, que mulheres que não conheçam de lado algum, vos peçam se
podem usar a vossa barba como almofada. Voltando à marca, têm uma grande gama
de produtos, cada qual com várias opções diferentes, que vão dos óleos – que uso
todos os dias -, aos shampoos, aos bálsamos, às ceras para o bigode, não
esquecendo pentes, tesouras e lâminas para ajudar a definir o corte da barba. Neste
momento estou a utilizar o Black Rebel porque o Full Mint já se acabou. Entretanto,
terei de encomendar mais porque também se está a acabar. Outra coisa que quero
experimentar é o shampoo, pois é das coisas mais difíceis de se arranjar. Não
vale a pena usarem um shampoo do cabelo na barba, pois só vai estragar e secá-la.
A minha experiência com a marca está a ser muito positiva.
Gosto do odor que liberta e de não ser muito gorduroso. A barba fica sempre com
um aspeto brilhante, mas se alguém mexer nela, não fica com óleo nas mãos. O
que faço é aplicar o óleo todos os dias pela manhã, depois do banho ou de lavar
a cara, e, depois de almoço, quando já não sinto tanto o aroma, molho as mãos e
passo com elas na barba, o que vai libertar de novo o cheirinho bom. O Full
Mint é especialmente bom para quem for guloso, pois o aroma a after eight
delicioso, fá-los-a criar água na boca. Mas cuidado, pode dar-se o caso de começarem a comer a vossa própria
barba. Outra coisa que gostei foi da embalagem. Uma pequena caixa de cartão
onde a garrafa vem, é sempre melhor que um frasco embrulhado em papel de
bolinhas de ar.
Porque é que estou a falar disto? Porque a minha luta por
encontrar produtos bons é uma constante. Encomendar do estrangeiro fica caro e é
um processo moroso, e se mandarem vir de fora da Europa, arriscam-se a ficar
com eles retidos na alfândega. Depois, é um produto nacional e que por isso
merece ser partilhado.
Se quiserem ver melhor os produtos, vão ao site da Le Beard
e façam a vossa primeira encomenda, para vocês ou para oferecerem ao vosso
barbudo favorito. Acreditem que não se vão arrepender!
Ao contrário dos animais, quando nascemos não temos a capacidade de
andar, nem tão pouco o conseguimos fazer após dias, semanas ou meses. Um
animal quando nasce consegue dar os primeiros passos ao fim dos
primeiros minutos; nós, somos completamente dependentes nos primeiros
anos de vida.
Primeiro temos de conseguir ter força para aguentar
o peso de uma cabeça demasiado grande para um corpo frágil. Depois
conseguimos rebolar. Gatinhamos e, por fim, damos os primeiros passos. Posso
dizer que, ainda hoje, estou a aprender a andar. Quantas e quantas
vezes, ainda tropeço nos meus próprios pés ou em qualquer pequena
elevação estranha no chão. Por isso, se ainda mal sei andar, muito menos
sei correr. Podem dizer que correr é só meter um pé à frente do outro a
uma velocidade mais rápida que se fosse a caminhar, e não estão
totalmente enganados. Acontece que, ao dar estes passos mais rápidos
numa estrada que não seja regular - imaginemos um trilho -, é preciso
conseguir coordenar esses movimentos com a visão e com as ordens vindas
do cérebro. E isto, parecendo que não, é das coisas mais complicadas que
existem. Não há uma única vez que vá correr em que não torça um pé, dê
um pontapé numa pedra ou raiz e que quase me mate colina abaixo. É justo
dizer que não sei correr. É com grande preocupação que penso que tenho
115kms para percorrer em finais de Abril, muita preocupação mesmo.
Mas só correr não chega. Ou melhor, convém ter ajuda para correr.
Assim, no passado domingo, fiz o meu primeiro treino com bastões. O que
me deixou ainda mais apreensivo em relação ao MIUT - Madeira Island Ultra Trail.
É que, se não bastasse já a dificuldade em coordenar pernas, pés, olhos
e cabeça, agora ainda tenho de conseguir coordenar braços e bastões.
Tudo ao mesmo tempo. O bastão direito acompanha o pé esquerdo e o bastão
esquerdo o pé direito, mas, às vezes, vão os dois bastões ao mesmo
tempo enquanto os pés continuam alternados. Mais, tenho de conseguir
enfiar as mãos pelas correias enquanto corro e antes de chegar a uma
subida, tirá-las quando acabar de subir e carregar os bastões durante os
115kms que me separam de Porto Moniz a Machico. Ainda estou a aprender,
os bastões ainda se atravessam à frente dos meus pés quando aparece uma
curva ou quando sigo por um trilho mais técnico, ainda não consigo
perceber bem como é que me vão ser úteis a descer quando tudo me
atrapalha mais do que ajuda.
Sei apenas três coisas: vou mesmo
precisar deles, vou meter ter de aprender a correr com eles e vou mesmo
ter de trabalhar estes braços sub-desenvolvidos no ginásio para
aguentarem a sova que vão levar.